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Engenharia e qualificação no centro do debate sobre a soberania energética de Portugal

A Casa da Música, no Porto, recebeu, no dia 20 de outubro, a conferência “Energia e Soberania Nacional”, promovida pela Ordem dos Engenheiros – Região Norte e pela APIEE. A segurança do abastecimento, a resiliência das redes, a qualificação dos profissionais e os desafios da transição energética estiveram no centro do debate

Bento Aires, presidente da Ordem dos Engenheiros – Região Norte, colocou as pessoas e a engenharia no centro da resposta aos desafios do setor energético. “Se não tivermos recursos humanos felizes e bem pagos, nós temos o nosso futuro verdadeiramente comprometido”, afirmou, defendendo um papel ativo da Ordem na qualificação dos engenheiros e na articulação entre os diferentes intervenientes do setor.

Para Bento Aires, operadores de rede, empresas prestadoras de serviços e engenheiros têm de atuar de forma articulada para responder às necessidades do sistema e dos consumidores. “Os problemas de funcionamento do sistema só podem ser ultrapassados através desta articulação entre engenharia, legislação e empresas”, sublinhou.

A qualificação e a falta de profissionais atravessaram grande parte da discussão. Bruno Rodrigues, presidente da direção da APIEE, alertou para a necessidade de atrair mais pessoas para o setor, valorizar as profissões técnicas e assegurar melhores condições salariais, num contexto em que a sociedade e a economia estão cada vez mais eletrificadas.

Eletrificação exige redes mais robustas

Numa intervenção em vídeo, Jean Barroca, secretário de Estado Adjunto e da Energia, enquadrou a segurança energética no atual contexto geopolítico e defendeu a eletrificação como um dos caminhos para reduzir a exposição de Portugal a fatores externos.

“Tudo o que pode ser eletrificado, deve ser”, afirmou, destacando a capacidade nacional para produzir eletricidade a partir de fontes como o vento e a água e a importância das interligações com Espanha. O governante referiu ainda o investimento de 1,58 mil milhões de euros no Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede Nacional e a importância de transformar a vantagem energética portuguesa numa vantagem competitiva para a indústria.

Segurança e resiliência das redes

Na mesa-redonda “Como garantir a segurança energética e a resiliência de Portugal?”, a capacidade das redes para responder ao crescimento da eletrificação e a fenómenos extremos esteve em destaque.

José Ferrari Careto, presidente da E-Redes, abordou o impacto das tempestades nas infraestruturas elétricas e a crescente pressão sobre as redes, provocada, entre outros fatores, pelos novos pedidos de ligação. A necessidade de reforçar os recursos humanos voltou a estar em foco, com o responsável a defender também uma maior aproximação aos sistemas de ensino.

João Conceição, administrador da REN, salientou a necessidade de encontrar um equilíbrio entre segurança do abastecimento, competitividade e sustentabilidade. O crescimento do autoconsumo, que representa já entre 4% e 5% do consumo anual de eletricidade, coloca igualmente novos desafios ao planeamento das redes.

Isabel Furtado, presidente do Conselho de Administração da Casa da Música, defendeu que soberania energética não significa independência absoluta, mas antes capacidade para reduzir a exposição do país a crises externas. Chamou ainda a atenção para as dificuldades de recrutamento nas profissões técnicas e para a necessidade de valorizar estas carreiras junto dos mais jovens.

A escassez de profissionais qualificados foi igualmente destacada por Jorge Vaz Ventura, diretor executivo da AQTSE, que apontou a valorização do ensino técnico-profissional, a formação e a certificação como respostas importantes às necessidades do setor.

Soberania energética passa pela diversificação

No encerramento, Paulo Bettencourt Preto dos Santos, coordenador da Especialização em Energia da Ordem dos Engenheiros, defendeu uma abordagem diversificada à transição energética, alertando que a eletrificação, por si só, não responde a todos os desafios da descarbonização.

“A soberania energética é igual a redundância”, afirmou, defendendo a diversificação das fontes e das infraestruturas. Paulo Bettencourt Preto dos Santos destacou também o peso da biomassa no consumo de energia renovável em Portugal e lembrou que determinados processos industriais exigem soluções adequadas às suas características, devendo ser ponderados fatores como segurança, competitividade e sustentabilidade.

A conferência reforçou uma ideia transversal: a soberania energética não depende apenas da capacidade de produzir energia ou de investir nas redes. Exige engenharia, profissionais qualificados, diversificação de soluções e articulação entre empresas, decisores e os diferentes agentes do setor.

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