Os Encontros Vínicos dos Vinhos Verdes regressaram a Viana do Castelo, numa iniciativa promovida pela Delegação Distrital de Viana do Castelo da OERN, a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, e o Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC) que reuniu especialistas, produtores, académicos e entidades do setor vitivinícola, num momento de reflexão técnica e estratégica sobre os desafios e oportunidades da fileira dos Vinhos Verdes.
O evento dividiu-se em dois dias, que se desenrolaram na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, na sede da Delegação, na Escola Escola de Hotelaria e Turismo de Viana do Castelo, na Quinta e Adega do Solar de Merufe e ainda na Adega Sobrinho do Arcipreste.
Na dia 8 de maio, os participantes tiveram a oportunidade de fazer parte de um programa composto por sessões institucionais, três painéis temáticos com debate, um curso de prova de vinhos e o jantar de gala com a entrega dos prémios “Vinho Verde do Ano 2026”.


A sessão, conduzida por Vitor Lima, Tesoureiro do Conselho Diretivo da OERN, contou com intervenções de Vítor Correia, Delegado Distrital da Ordem dos Engenheiros de Viana do Castelo, Adelino Bernardo, Coordenador do Grupo de Trabalho de Engenharia Agronómica da OERN e Vogal do Colégio Nacional de Engenharia Agronómica da OE2 e Bento Aires, Presidente do Conselho Diretivo da OERN que abriram esta sessão dando a perspetiva da Ordem dos Engenheiros sobre o mercado dos Vinhos Verdes.
Vitor Correia sublinhou a importância de valorizar o contributo da Engenharia para reforçar o impacto dos Vinhos Verdes na Região do Minho e a necessidade de continuar a apoiar os Engenheiros que escolhem áreas como a Agronómica e a Alimentar que trazem a qualidade e o rigor para a produção e disseminação deste produto.
Já Bento Aires recordou a necessidade de expandir este tipo de eventos para levar a valorização dos vinhos verdes pelo país e pelo mundo fora e evidenciou a importância destes debates para os produtores, que acabam por ser quem mais é afetado pelas flutuações do mercado e a (des)valorização deste elemento tão próprio da zona minhota.
“Estes Encontros juntam o território. Nós temos olhos postos no desenvolvimento e na qualidade de vida dos cidadãos. Não é possível desenvolver o território sem termos Engenharia, por isso a Ordem quer estar presente”.
Bento Aires, Presidente da OERN


Seguiram-se as intervenções de Isabel Valin, Diretora da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (ESA-IPVC), Dora Simões, Presidente da Direção da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes e Manuel Vitorino, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo que sublinharam a relevância estratégica dos Vinhos Verdes para a economia regional e nacional, bem como a importância da inovação, sustentabilidade e articulação entre engenharia, ciência e produção na valorização do setor.
“O coletivo de sustentabilidade visa o auxílio no progresso em várias áreas. É uma transição muito alavancada no conhecimento. Teremos de apresentar a nível europeu os valores para o progresso”.
Dora Simões, Presidente da Direção da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes



Viana está com taxas de crescimento de turismo acima dos 20% e em terceiro lugar temos o mercado dos EUA, e isso traz-nos algumas exigências e devemos incentivar os produtores e empresários a valorizar estes produtos”.
Manuel Vitorino, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo
O primeiro painel, dedicado ao tema “O Mercado Interno do Vinho”, teve a moderação de Pedro Reis, Vogal Nacional da Ordem dos Engenheiros, e contou com as intervenções de João Pereira, da Quinta das Pereirinhas, Simão Pedro de Aguiã, da Quinta Torre de Aguiã, e Mário Rui Monteiro, da Quinta das Arcas. O debate centrou-se na evolução do consumo no mercado nacional, nas estratégias de posicionamento dos produtores e na valorização da identidade dos Vinhos Verdes junto do consumidor interno.


Seguiu-se o segundo painel, dedicado ao tema “O Mercado Externo do Vinho”, moderado por Adelino Bernardo, com a participação de Bruno Almeida, da Barcos Wines – Adega Cooperativa Ponte da Barca, Nuno Macedo, da Vercoope / Caves de Felgueiras, e Ricardo Bastos, da Adega de Monção. A sessão abordou os desafios da internacionalização, as estratégias de exportação e a competitividade dos Vinhos Verdes nos mercados externos, bem como o papel das estruturas cooperativas e dos produtores na consolidação da marca Portugal.
O terceiro painel, subordinado ao tema “Novos Produtos e Nichos de Mercado”, foi moderado por Isabel Santana, Técnica Superior da Confagri e do Grupo de Trabalho Regional de Engenharia Agronómica da OERN, e contou com Miguel Viseu, da Aphros Wine, Márcio Lopes, enólogo e produtor independente, e José Carlos Amorim, da Casa da Cuca – Turismo, Animação Cultural Limiano, Lda. O debate destacou a inovação no setor vitivinícola, o desenvolvimento de novos perfis de produto, a ligação entre vinho e turismo e a exploração de nichos de mercado associados a experiências diferenciadas.

Depois dos seminários, a Delegação de Viana do Castelo recebeu o curso de prova de vinhos, orientado pela enóloga Patrícia Peixoto, da Sumius – Vinhos Monção e Melgaço, onde os participantes conheceram uma abordagem prática à análise sensorial, identificação de aromas e compreensão das características dos diferentes Vinhos Verdes.


O evento encerrou com o jantar de gala e a entrega dos prémios “Vinho Verde do Ano 2026”, distinguindo os melhores vinhos nas categorias de Vinho Verde Branco, Vinho Verde Rosado, Vinho Verde Tinto, Vinho Verde Espumante Branco e Vinho Verde Espumante Tinto, num momento de celebração da qualidade e diversidade da produção vitivinícola da região, realizado na Escola de Hotelaria e Turismo de Viana do Castelo.
Houve ainda tempo para um momento musical.
No dia 9 de maio o Solar de Merufe recebeu um painel e workshop dedicado ao tema “O Vinho no Turismo: Alojamento, Hotelaria e Restauração”, que reuniu vários especialistas e entidades do setor para debater o papel do enoturismo na promoção dos territórios vitivinícolas.
Com moderação de Vera Cunha, consultora, e com intervenções de João Paulo Magalhães (Quinta e Hotel de Ventozelo/Douro), Jaime Riba (Solar de Merufe), Agostinho Peixoto (Rota de Enoturismo Porto & Norte) e Rodolfo Queirós (Presidente das Rotas do Vinho de Portugal) o debate centrou-se na integração do vinho regional na oferta turística, no enoturismo como motor de promoção e consumo, e na partilha de boas práticas nacionais e internacionais.

Durante a manhã foi ainda apresentado o projeto "Wine & Blues Festival 2026", seguido de um almoço enogastronómico. Durante a tarde, os participantes realizaram visitas à Quinta e Adega do Solar de Merufe e à Adega Sobrinho do Arcipreste, num momento de contacto direto com a produção e identidade vitivinícola local.
Os Encontros terminaram assim depois de dois dias dedicados a reforçar a ligação entre os vinhos verdes, turismo, mercado e desenvolvimento regional.
CONCLUSÕES DO SEMINÁRIO DOS XV ENCONTROS VÍNICOS DO VINHO VERDE
O seminário decorreu em quatro painéis, reunindo produtores, cooperativas, especialistas e agentes do turismo ligados ao setor vitivinícola, com foco nos desafios e oportunidades do Vinho Verde nos mercados nacional e internacional, bem como na inovação e no enoturismo.
1.º Painel – O Mercado Interno do Vinho
João Pereira, da Quinta das Pereirinhas, em Monção, apresentou uma análise da evolução da produção e comercialização do vinho ao longo dos últimos anos, destacando a crescente procura por vinhos brancos e rosados e a diminuição do consumo de tintos. Referiu que Portugal acompanha a tendência mundial de ligeira quebra no consumo de vinho, consequência da alteração dos hábitos de consumo, sendo o turismo um fator que ajuda a atenuar essa redução. Sublinhou ainda que a Região dos Vinhos Verdes representa cerca de 16,5% da quota de mercado nacional, rivalizando com o Alentejo em diferentes épocas do ano. Explicou também que os principais canais de venda continuam a ser a distribuição e a restauração, embora com diferenças significativas no preço médio praticado. Entre os principais desafios do setor destacou o aumento dos custos de produção, energia e logística, as perturbações nas cadeias de abastecimento e a maior cautela dos consumidores perante a incerteza económica. Como oportunidades estratégicas apontou a aposta no marketing, na participação em feiras nacionais e internacionais, na realização de provas e eventos e na proximidade digital através das redes sociais.
Simão Pedro de Aguiã, da Quinta da Torre de Aguiã, em Arcos de Valdevez, partilhou a sua experiência enquanto pequeno produtor que, há cerca de 30 anos, decidiu apostar na produção de Vinho Verde tinto numa altura em que a região se orientava cada vez mais para os vinhos brancos. A reduzida produção inicial permitiu conquistar um nicho de mercado, mas o aumento posterior da área de vinha e da produção acabou por ultrapassar a procura, comprometendo a sustentabilidade económica da exploração, apesar da reconhecida qualidade do produto.
Mário Rui Monteiro, da Quinta das Arcas, em Valongo, falou do percurso empresarial da Quinta das Arcas, que investiu fortemente tanto nos Vinhos Verdes como no Alentejo. Destacou a elevada concorrência no setor, tanto comercial como ao nível da produção, e a importância da tecnologia para garantir produtividade e viabilidade económica. Considera que os Vinhos Verdes têm hoje forte notoriedade junto do consumidor, que procura cada vez mais frescura e autenticidade, embora o setor enfrente dificuldades resultantes da perda de poder de compra, da concorrência de vinhos light e frisantes e da fragilidade dos mercados. Defendeu que a exportação é essencial para o sucesso dos Vinhos Verdes e apontou como oportunidades a premiumização, a gastronomia, o vinho a copo, o enoturismo e uma comunicação mais emocional.
2.º Painel – O Mercado Externo do Vinho
Bruno Almeida, da Barcos Wines, em Ponte da Barca, apresentou a cooperativa como um projeto que une o território e as gentes de Ponte da Barca e Arcos de Valdevez. A empresa, fundada em 1963, trabalha com centenas de famílias produtoras e exporta cerca de 80% da sua produção para 35 países. Destacou as características aromáticas, elegantes e minerais dos vinhos produzidos, bem como o reconhecimento internacional alcançado através de vários prémios. Sublinhou também a forte aposta da empresa na sustentabilidade ambiental, através de práticas de produção pouco intensivas, preservação das castas autóctones, uso eficiente de recursos e redução do impacto ambiental das embalagens. Referiu que a quebra da produção nacional e o aumento do preço médio de exportação reforçam a necessidade de apostar em mercados de maior valor acrescentado, como os EUA, Alemanha e vários países asiáticos, defendendo a premiumização como estratégia de futuro.
Nuno Macedo, da Vercoope / Caves de Felgueiras, apresentou a Vercoope como uma união de adegas cooperativas criada para garantir capacidade de produção, qualidade e presença nos grandes mercados nacionais e internacionais. Com mais de 3000 produtores associados e sete adegas cooperativas da Região dos Vinhos Verdes, a Vercoope produz cerca de 10 milhões de garrafas por ano e exporta para mais de 40 países distribuídos pelos cinco continentes. Destacou o equilíbrio entre mercados europeus e extracomunitários e o crescimento do canal online, tanto a nível nacional como internacional. Referiu ainda o reconhecimento obtido através de mais de uma centena de prémios e distinções conquistados nos últimos anos.
Ricardo Bastos, da Adega Cooperativa de Monção, apresentou a Adega de Monção como um dos principais pilares socioeconómicos da sub-região de Monção e Melgaço. Com mais de 1400 produtores associados, destacou a importância da casta Alvarinho na afirmação da região e o crescimento da exportação, sobretudo para países como Suécia, Holanda, França, Canadá e EUA. Entre os principais desafios identificou a inflação, o aumento dos custos logísticos, a instabilidade geopolítica, as alterações climáticas e as mudanças nos padrões de consumo e nas políticas públicas relativas ao álcool. Considera que a sustentabilidade e a adaptação ao novo perfil do consumidor serão fundamentais para o futuro do setor.
3.º Painel / Mesa-redonda – Novos Produtos e Nichos de Mercado
Miguel Viseu, da Aphros Wine, em Arcos de Valdevez, apresentou a evolução da empresa desde a recuperação da propriedade familiar em Padreiro e a aposta na produção biodinâmica. Ao longo dos últimos vinte anos, a Aphros desenvolveu diversos projetos e referências vínicas diferenciadoras, consolidando uma forte presença internacional, com exportações para 35 países. Referiu que o setor atravessa profundas mudanças, com menor influência das feiras internacionais e dos críticos tradicionais, enquanto os consumidores valorizam cada vez mais autenticidade, identidade e terroir. Apresentou também experiências desenvolvidas no âmbito das bebidas de baixo teor alcoólico e do vinho em keg, direcionado para a restauração e associado a preocupações ambientais. Embora o enoturismo ainda não tenha grande expressão na empresa, reconheceu o potencial deste segmento como forma de criar ligação direta entre consumidor e produtor.
Márcio Lopes, da Márcio Lopes Winemaker, abordou o conceito de “nicho global”, defendendo que os pequenos produtores podem competir à escala internacional através da autenticidade, da diferenciação e da ligação direta ao consumidor. Explicou que o mercado de vinhos “bons e baratos” se encontra saturado, enquanto os segmentos premium valorizam vinhos de autor, terroir e narrativas fortes. Considera que os pequenos produtores já possuem naturalmente muitas das características valorizadas nesses nichos e que a sustentabilidade não deve ser entendida apenas como certificação, mas também como capacidade de manter projetos agrícolas economicamente viáveis e preservar o património vitícola. Concluiu afirmando que existem mercados que procuram vinhos perfeitos e outros que procuram vinhos memoráveis.
José Carlos Amorim, da Casa da Cuca, em Ponte de Lima, falou da longa tradição vitivinícola da propriedade familiar e da recuperação de castas autóctones associadas à história do vinho branco de Moreira do Lima. Destacou o terroir particular da exploração e a valorização das castas Loureiro, Alvarinho e Cainho, cuja qualidade tem sido amplamente reconhecida através de prémios nacionais. Sublinhou ainda a preocupação com a preservação da natureza, da biodiversidade e da paisagem agrícola envolvente.
4.º Painel / Workshop – O Vinho no Turismo: Alojamento, Hotelaria e Restauração
O quarto painel decorreu no Solar de Merufe, em Geraz do Lima, centrando-se na relação entre vinho, turismo, hotelaria e restauração. Rodolfo Queirós, Presidente da Associação das Rotas dos Vinhos de Portugal, destacou a importância crescente do enoturismo no país e o papel das rotas vínicas na valorização do património cultural, natural e económico das regiões. Referiu ainda a diversidade da oferta nacional, desde o Douro ao Alentejo e aos Vinhos Verdes, defendendo o vinho como elemento estratégico da oferta turística portuguesa.
Agostinho Peixoto, responsável pela dinamização do produto Gastronomia e Vinhos da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte, apresentou a Rota de Enoturismo Porto & Norte e destacou a crescente procura por experiências autênticas ligadas à cultura vínica. Sublinhou a importância da articulação entre produtores, hotelaria e restauração e o papel dos eventos temáticos e das parcerias na promoção dos vinhos regionais.
João Paulo Magalhães, da Quinta e Hotel de Ventozelo / Granvinhos, apresentou uma visão integrada do enoturismo, associando vinho, gastronomia, paisagem, hospitalidade e relação humana. Explicou a importância da cooperação local e da criação de experiências diferenciadoras capazes de fidelizar os visitantes. Referiu ainda o recente investimento da Granvinhos na Região dos Vinhos Verdes, através da aquisição da Quinta de S. Salvador da Torre, em Viana do Castelo.
Jaime Riba, do Solar de Merufe, partilhou a experiência particular do espaço, onde o envelhecimento dos vinhos tintos e a harmonização com a gastronomia tradicional local se tornaram fatores diferenciadores de atração turística. O painel encerrou com uma reflexão sobre boas práticas nacionais e internacionais de enoturismo, sublinhando a importância da sustentabilidade, da qualificação da oferta e da cooperação entre os diversos agentes do setor turístico e vitivinícola.
Encerramento
O seminário terminou com um almoço enogastronómico acompanhado por Vinhos Verdes do concelho de Viana do Castelo, seguido de visitas ao Solar de Merufe e à Quinta do Sobrinho do Arcipreste, onde decorreram provas de vinhos e momentos de convívio informal entre os participantes. Houve ainda espaço para a apresentação oficial da 8.ª edição do Wine & Blues Festival Viana do Castelo, que decorrerá nos dias 22 e 23 de maio de 2026, no Anfiteatro do Jardim da Marina de Viana do Castelo.
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