Licenciado em Engenharia Civil, com especialização em Estruturas, iniciou o percurso profissional ainda como estudante na área da pré-fabricação e consolidou experiência como Diretor de Obra e Produção na ECOP Arnaldo de Oliveira, participando em obras de grande dimensão no Porto. Complementou a formação com um MBA e especialização em Marketing na Universidade Católica do Porto.
Aos 27 anos integrou o Conselho de Administração de um promotor, liderando durante seis anos a construção do Bom Sucesso Design Resort, em Óbidos. Em 2011, fundou a WEPLAN, empresa de referência na construção, reabilitação e serviços de engenharia, destacando-se também pelo crescimento internacional na Argélia e em Moçambique.
Desde 2018, a WEPLAN assume a gestão das montagens do festival Primavera Sound, com envolvimento crescente na sua organização e estratégia. Atualmente, dedica-se à atividade da WEPLAN no mercado nacional e é cofundador da WELIVE, promotora focada em habitação de luxo no Porto.
Membro sénior da Ordem dos Engenheiros da Região Norte, Ricardo Garcia partilha nesta entrevista a sua visão sobre o presente e o futuro da engenharia, defendendo um equilíbrio entre conhecimento técnico, gestão, inovação e literacia tecnológica

Nome: Ricardo Garcia
Idade: 48
Formação: Licenciatura em Engenharia Civil, ramo Estruturas (1995-2000); MBA Especialização em Marketing (2003-2005)
Instituição de ensino: FEUP; Universidade Católica
Membro Sénior da OERN: nº 40812
Função atual: Co-CEO & Founder, Engenheiro Civil
Empresa atual: WEPLAN & WELIVE
Empresas anteriores: CIVIBRAL | ECOP Arnaldo Oliveira, SA | ACORDO SGPS
Olhando para o seu percurso desde a licenciatura em Engenharia Civil até hoje, quais foram as decisões mais determinantes na sua carreira?
Enquanto estudante foi ter encarado a Faculdade de Engenharia como uma oportunidade e não como uma obrigação. É uma oportunidade que não se repete, e o que se traz de “lá” é muito valioso, fundamentalmente prepara-nos para saber pensar e reagir no abstrato. Quis saber o que seria “ser um Engenheiro” ainda na Faculdade, procurando trabalho relacionado nos períodos de férias. Permitiu dar razão à existência de algumas matérias, percebendo a utilidade para o futuro. Já Engenheiro, dar tempo ao tempo para aprender, mas nunca virar as costas aos desafios, não ter medo de falhar e procurar proximidade com quem sabe. Voltar a estudar, um programa de MBA na tentativa de complementar o conhecimento e a vida de Engenheiro na área da Produção, sendo sempre aquilo que me fascinou. Tudo isto implica decisões de mudança com compromissos familiares, no meu caso ter aceite aos 27 anos mudar de cidade para novo desafio profissional. Não me arrependo, tal como aos 37, ir à descoberta da construção em Moçambique. Mas a decisão que terá sido mais determinante, julgo ter sido aos 33 anos, resolver estabelecer-me juntamente com o meu amigo e atual sócio, por minha/nossa conta e risco. A WELPAN foi a minha decisão mais marcante.


A experiência em obra, ainda enquanto estudante, foi decisiva. Que vantagens considera que isso lhe trouxe face a um percurso mais académico?
Ter a oportunidade de perceber, enquanto se estuda, o que é que um Engenheiro de Produção faz, o que é que é suposto saber, como se distingue sob o ponto de vista de know-how. É muito difícil enquanto estudante percebermos o porquê de determinadas matérias. Questionamo-nos muitas vezes “para que é que isto serve”? Mas quando nos deparamos, ainda que seja como meros espectadores, por exemplo numa reunião de obra com uma conversa sobre medidas adequadas para a largura de um corredor, sobre a performance de um tubo de PPR ou multicamadas numa instalação hidráulica, no dimensionamento/escolha de uma determinada peça de cofragem a instalar para betonar uma peça, sobre a reação aos raios ultravioletas de uma tela asfáltica, e milhares de temas que se relacionam com preparação de obra, execução de obra, interação com projetistas, estatística e literacia tecnológica, percebemos o quão importante é cada matéria que nos apresentam e as quais somos avaliados na Universidade.
"Não colocar a competência específica de parte. facilita a gestão, ajuda ao reconhecimento da liderança e ajuda muito a tomar decisões."
Ricardo Garcia
Como conciliou, ao longo do tempo, a vertente técnica da engenharia com a gestão e a liderança empresarial?
A vertente técnica, seja o cálculo, sejam todos os conhecimentos no âmbito da matemática, resistência dos materiais, teorias de estruturas e betão armado, sendo a minha especialização no ramo de estruturas, está sempre presente. Na Faculdade fiz uma biblioteca com dossiers com os meus apontamentos e com as “antigas” sebentas (manuais da época) que tenho sempre comigo.


Muitas vezes, a memória não responde como queremos, mas ao consultar as minhas “pastas” é mais fácil recuperar. Na produção, lidamos diariamente com projetos desenvolvidos por colegas, e a forma como os lemos, se for atenta e com espírito crítico e interpretativo, faz com que a ginástica mental se mantenha. A ambição de não colocar a competência específica de parte, na minha opinião, facilita a gestão, ajuda ao reconhecimento da liderança e ajuda muito a tomar decisões.
"Matérias de natureza jurídica, económica e tecnológica são essenciais para a prática da profissão"
Ricardo Garcia
Considera que o engenheiro de hoje precisa de competências muito além da técnica? Quais destacaria como essenciais?
Acho fundamental. Matérias de natureza jurídica, económica e tecnológica são essenciais para a prática da profissão, nomeadamente para os Engenheiros que estão mais ligados à Produção, ao Project Management ou a áreas de Gestão. Temas de legislação laboral, direito económico, contratos, normas e outras matérias do âmbito legal, facilitam e ajudam muito no dia a dia, se algum conhecimento houver. No mínimo, saber perceber o que o advogado tem para nos dizer.
Assuntos fiscais, impostos, contabilidade, mapas financeiros de controlo de gestão, serão tão importantes como tudo o resto. Na prática da profissão, estes temas estão sempre presentes, e um conhecimento, ainda que generalizado, facilitará a forma de pensar e de atuar, tal como a capacidade de diálogo com quem é dessa área específica.
Por fim, não tenho dúvidas que a literacia tecnológica vai distinguir-nos uns dos outros. Recomendo veemente a todos os Engenheiros jovens fazer um programa MBA pós-laboral e dedicar tempo às ferramentas informáticas essenciais para quem lida com texto, cálculo e desenho de construção.


O que o motivou a criar a WEPLAN e quais foram os maiores desafios iniciais?
Fundamentalmente a possibilidade de implementar no meu dia a dia, no meu trabalho, na minha relação com fornecedores e clientes, na minha própria dose de exposição ao risco ou conservadorismo, no meu ritmo de trabalho, na velocidade a que quero fazer o que me compete, na liberdade de escolha com quem trabalha comigo, aquilo que considerava e que tenho consolidado sob o ponto de vista de cultura. Cultura que vem do verbo cultivar, e não outra “cultura”. Cultura no sentido de como se transforma um terreno vazio num campo de cultivo. Como fazer crescer o legume ou o olival.
Desde jovem que idealizei uma empresa de construção que fosse, na génese, uma empresa de engenharia. Que valesse pela sua “cultura”, pelo seu know-how, pela capacidade reconhecida por clientes em saber gerir projetos, em saber fazer obra, com valores imperativos e inalteráveis – Seriedade, Confiança, Dedicação e Empenho, Competência, Eficácia ao preço justo.
Em 2011, depois de percorrer experiências por conta de outrem, e de achar que estava preparado, o maior desafio foi o de convencer o meu atual sócio, Ricardo Meirinhos, porque tinha a certeza de que, a dois, correria melhor. Quando ele disse que sim, o desafio passou a ser: mostrar que valeu a pena. E assim foi… é.


Que competências considera fundamentais para um engenheiro que queira enveredar pelo empreendedorismo?
Não sei se serão só competências. Diria que é um mix de autoconfiança, aversão ao risco q.b., consciência e muita cautela. A sorte protege os audazes, mas “quanto mais alto se sobe, maior é a queda”.
Significa dizer que é preciso uma grande dose de equilíbrio e confiança, ter-se a maturidade suficiente para fazer poucas asneiras, rodearmo-nos de pessoas de outras áreas que saibam fazer as perguntas por nós, saber o que se está a fazer e não ter dúvidas do que somos capazes. Para tudo isto é preciso alguma experiência, saber aproveitar oportunidades, ter com quem partilhar o risco e os lucros, e muita dedicação.
"No Primavera Sound, transformámos montagem em engenharia, e engenharia em estratégia. (...) Seja em edifícios, seja em estruturas temporárias, em pontes, ou em palcos provisórios, a engenharia está sempre patente e na base da resolução da estabilidade e, consequentemente, da segurança."
Ricardo Costa
Como surgiu o envolvimento da WEPLAN com o Primavera Sound e quais são os principais desafios de engenharia e project management num festival de grande escala, bem como de que forma a engenharia contribui para a experiência do público num evento?
Um cliente da WEPLAN desafiou-nos em 2018 para liderar a operação das montagens do festival. Isso implicava transpor para projeto aquilo que até então era feito maioritariamente por intuição e experiência, desenvolver um programa de cadernos de encargos, caracterizando tudo aquilo que tinha que ser construído e montado em 5 semanas, um planeamento de tarefas ao dia e por especialidade/interveniente numa missão alucinante de 24/24 h por dia, procurement transversal a todas as atividades no sentido de escolha e seleção de outros players nas áreas específicas que envolvem a instalação de um festival e a liderança no decurso do processo de montagens no terreno. Em suma, um serviço de project management onde há muitas semelhanças com uma obra tradicional, mas as estruturas são temporárias, há temas relevantes de acessibilidades, gestão de multidões, redes de infraestruturas de energia, águas e esgotos temporárias e improvisadas, logística de montagens, gestão de marcas e branding do próprio evento, arquitetura paisagística e desenvolvimento de projetos de estruturas de stands provisórios e ativações de marcas, etc.


De 2018 até agora, a interação da WEPLAN, tendo cumprido a implementação dos processos de montagem (controlo de custos, planeamento e qualidade) em 2022, tem vindo a participar no Primavera Sound cada vez mais ao nível dos estudos de conceção de ano para ano, do suporte para questões de natureza técnica especiais que ocorrerem de ano para ano, no estudo e criação de soluções com o mercado para melhorar a performance das montagens e reutilização, na aposta do crescimento de zonas do festival sob o ponto de vista funcional e de negócio, como o caso da zona VIP, seja no âmbito comercial/negócio, seja no âmbito das soluções construtivas e implementação. A relação com o promotor é cada vez mais sólida e de confiança, que resulta numa partilha e corresponsabilidade em muitas das áreas do festival, fazendo parte do núcleo central da organização do mesmo.
Diria que tudo isto é engenharia. A componente técnica, as bases de raciocínio, venham elas da física ou da matemática, o project management, está em tudo no festival. No Primavera Sound, transformámos montagem em engenharia, e engenharia em estratégia.
Como equilibra a componente criativa do festival com as exigências técnicas e de segurança?
Seja em edifícios, seja em estruturas temporárias, em pontes, ou em palcos provisórios, a engenharia está sempre patente e na base da resolução da estabilidade e, consequentemente, da segurança.
Todos os anos há bandas novas, patrocinadores novos, alterações ao layout, pelo que a reação necessária à máquina criativa do festival é um dos maiores desafios da WEPLAN.
"O reconhecimento da Engenharia Civil é cada vez mais forte, e, se algo pode ser imaginado, julgo que será a aceleração da presença, da participação e da incorporação de engenheiros civis nas mais diversificadas áreas da gestão, não propriamente só naquelas que se relacionam com a construção."
Ricardo Garcia
Como imagina o futuro da engenharia civil nos próximos 10 a 20 anos?
Com a mesma importância de sempre, já que a Engenharia Civil está na génese das competências fundamentais para a sociedade em geral. Fará parte do núcleo de profissões vitais, que nunca deixarão de existir. O reconhecimento da Engenharia Civil é cada vez mais forte, e, se algo pode ser imaginado, julgo que será a aceleração da presença, da participação e da incorporação de engenheiros civis nas mais diversificadas áreas da gestão, não propriamente só naquelas que se relacionam com a construção. Tudo o que envolva capacidade de raciocínio, planeamento, procurement, “project finance”, project management, necessidade de engenho, processos, aliciará cada vez mais pessoas com formação em Engenharia Civil.

O conteúdo do curso de engenharia, especialmente nas universidades “mais bem cotadas”, é verdadeiramente muito bom e com boas bases no que toca aos “valores e bons costumes”; quem (os estudantes) tem vontade, quem se sente enquadrado, juntando um pouco de ambição, terá o mercado de trabalho de porta aberta.
"A WEPLAN é um caso a assinalar, já que o processo de internacionalização para Moçambique, a segurança dos primeiros passos, o acesso à informação relevante para “exportar” o negócio, e também a própria motivação foram enormemente impulsionados e proporcionados pela Ordem dos Engenheiros - Região Norte"
Ricardo Garcia
Como vê a atuação da Ordem dos Engenheiros, sobretudo na Região Norte?
Agregadora, dinamizadora, defensora da profissão e do valor do contributo que os engenheiros, neste caso na Região Norte, podem dar na sociedade em geral.
Importantíssima na classificação e atribuição de título de engenheiro, garantindo a capacidade e a preparação de todos os que frequentaram os devidos estudos, no sentido de poderem atuar corretamente enquanto profissionais. No fundo, reguladora da profissão.
Altamente contribuidora para a “abertura de portas”, seja para as grandes empresas, seja para as pequenas e médias empresas. A WEPLAN é um caso a assinalar, já que o processo de internacionalização para Moçambique, a segurança dos primeiros passos, o acesso à informação relevante para “exportar” o negócio, e também a própria motivação foram, indiscutivelmente, enormemente impulsionados e proporcionados pela Ordem dos Engenheiros - Região Norte.
"O futuro constrói-se, não nos é dado de “mão beijada”
Ricardo Garcia
Que conselhos daria a um jovem engenheiro que está agora a iniciar a sua carreira?
Seguir o seu caminho ao seu próprio ritmo, sem deixar de lado ambição q.b. Aproveitar seriamente os conhecimentos e a experiência que lhe possam ser colocados à disposição no enquadramento profissional onde se encontra. Ter paciência e ser resiliente por onde vai passando, pois o futuro constrói-se, não nos é dado de “mão beijada”. Ter bem presente, a cada passo, a cada minuto, e sempre que estará subjacente à hipótese de escolha de tomada de posição, os valores do senso comum que fazem de nós pessoas de bem, os valores de deontologia e ética profissional que a Ordem nos deu a conhecer, e acreditar em si próprio.
Sobre trabalho, sintetizando aquilo que me ocorre em 1.ª linha, nunca permanecer numa função/numa empresa, caso sinta que já não tem nada para dar à empresa ou a empresa já não tem nada para lhe dar/acrescentar. Sejam quais forem as condições e a dificuldade que gera um “virar de página”. Nesse momento, há que ter consciência e mudar!


Se pudesse voltar atrás, que conselho daria a si próprio enquanto recém-licenciado?
Ponderar melhor os riscos que a profissão implica, designadamente quando ainda não havia maturidade suficiente, muito embora pudesse achar que sim. Em suma, “ir” mais devagar.
Ter aproveitado o tempo para aprofundar conhecimento, voltar a estudar, complementar competências. Se fosse hoje, teria feito mais.
Tirar partido do potencial de vantagem em experiências “lá fora”, mais novo, no âmbito da Engenharia Civil.
Por fim, a determinada altura, ter tido a confiança em me tornar empresário, “dono de mim próprio” mais cedo.
Há futuro onde há engenheiros? Comente.
Existirão sempre engenheiros de futuro, sendo esse futuro potenciado pelos engenheiros de hoje, cujo know-how e cultura da profissão advêm do legado deixado pelos engenheiros do passado num presente que ambicionará ser-se ou dar lugar aos de futuro.
“A necessidade faz o engenho”, logo onde há engenheiro, num mundo com tantas necessidades, existirão novos engenhos, “novo” futuro.
Entrevista e texto: Catarina Soutinho | Design: Melissa Costa