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Artigo de Opinião] Quando um frigorífico deixa de ser apenas um frigorífico

Por Nuno Nunes, Engenheiro Informático

Esta semana, sete lojas Intermarché em Portugal foram afetadas por um ciberataque dirigido aos seus sistemas de refrigeração. O Grupo Mosqueteiros confirmou que o ataque terá visado um prestador de serviços externo responsável pela gestão destes sistemas, obrigando à ativação de procedimentos de contingência para recuperar o normal funcionamento dos equipamentos.

O incidente não se ficou por Portugal. Na mesma altura, dezenas de supermercados em vários países europeus, incluindo Bélgica, Luxemburgo, Suécia, Irlanda, Países Baixos e Estónia, foram também afetados por ataques semelhantes. Em alguns casos, os atacantes conseguiram alterar remotamente as temperaturas dos equipamentos, fazendo-as subir para valores próximos dos 50 graus.

Mas este não é um episódio isolado.

Há apenas algumas semanas, durante a madrugada de 11 para 12 de outubro, centenas de supermercados em França foram alvo de um ataque informático com consequências semelhantes. Lojas de cadeias como Carrefour, Intermarché, Monoprix e Coopérative U viram os seus sistemas de refrigeração comprometidos. Os atacantes conseguiram alterar temperaturas e prolongar os ciclos de descongelação, provocando a deterioração de alimentos frescos e congelados, danos em equipamentos e prejuízos financeiros significativos.

Vivemos rodeados de dispositivos ligados à Internet (...) Esta ligação traz eficiência, monitorização e controlo à distância, mas transforma cada equipamento num potencial ponto de entrada para um ataque.

O que inicialmente parecia um incidente localizado tornou-se, em poucas semanas, um alerta para todo o setor da distribuição alimentar europeu. E agora chegou a Portugal.

À primeira vista, pode parecer apenas mais uma notícia curiosa do mundo tecnológico. Mas não é. É um exemplo muito concreto de como a cibersegurança deixou há muito de ser apenas um assunto de computadores. Hoje, um ataque digital pode afetar a comida que compramos, a energia que consumimos, a água que bebemos, os transportes que utilizamos ou os serviços de saúde de que dependemos.

Hoje, um ataque digital já não afeta apenas Sistemas Digitais. Pode afetar produtos, pessoas e serviços essenciais da nossa sociedade.

Vivemos rodeados de dispositivos ligados à Internet: sistemas de refrigeração, linhas de produção, logística, iluminação, elevadores, climatização, equipamentos médicos e redes de energia. Esta ligação traz eficiência, monitorização e controlo à distância, mas transforma cada equipamento num potencial ponto de entrada para um ataque.

E há aqui uma questão particularmente importante: muitos destes equipamentos são geridos remotamente por fornecedores e prestadores de serviços externos. Uma vulnerabilidade num sistema de terceiros, uma credencial comprometida ou um acesso remoto mal protegido pode ser suficiente para colocar em risco a operação de várias organizações em simultâneo.

Um equipamento ligado à Internet deixa de ser apenas uma máquina. Passa a depender de software, acessos, atualizações e configurações remotas. Se estiver desatualizado, exposto ou mal protegido, pode ser manipulado por terceiros com consequências no mundo real: interrupção de serviços, desperdício, perdas financeiras, danos físicos e riscos para a segurança das pessoas.

A tecnologia não é o problema. O problema é tratá-la como se não tivesse riscos.

Com o avanço da inteligência artificial, este cenário torna-se ainda mais preocupante. A IA pode ajudar as empresas a detetar comportamentos anormais e a responder mais depressa a incidentes, mas também pode ser usada por atacantes para automatizar tentativas de intrusão, identificar vulnerabilidades e tornar ataques mais rápidos, credíveis e difíceis de detetar.

Em cibersegurança, já não basta perguntar se um sistema funciona. É essencial perguntar quem lhe consegue aceder, se está atualizado, se precisa realmente de estar ligado à Internet, que dependências existem de fornecedores externos e o que acontece se alguém assumir o seu controlo.

Os ataques aos supermercados devem servir de alerta. Um problema que começa num sistema de refrigeração pode rapidamente transformar-se num problema operacional, económico e até de segurança pública.

A tecnologia não é o problema.

O problema é tratá-la como se não tivesse riscos.

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