A Ordem dos Engenheiros – Região Norte (OERN) recebeu, no passado dia 25 de março, uma nova sessão técnica organizada pelo Grupo de Trabalho de Engenharia do Ambiente, sob o tema “Das Emissões aos Créditos: O Mercado Voluntário de Carbono Português”. Perante um auditório cheio, representantes institucionais, especialistas e profissionais do setor debateram o estado atual e as perspetivas de evolução do Mercado Voluntário de Carbono (MVC) em Portugal, com particular enfoque nos desafios regulatórios, metodologias de certificação e oportunidades de negócio associadas ao caminho desde as emissões até aos créditos de carbono.
A sessão foi aberta por Miguel Costa, Coordenador do Grupo de Trabalho de Engenharia do Ambiente, Silvino Sousa, Coordenador do Grupo de Trabalho de Engenharia Florestal, e Bento Aires, Presidente do Conselho Diretivo, que sublinharam a pertinência do tema no quadro da transição climática, neutralidade carbónica e políticas ambientais e florestais. Os intervenientes destacaram ainda o papel central dos engenheiros na consolidação do MVC e a importância da OERN como espaço de diálogo técnico e estratégico.



Seguiu‑se a apresentação de Rita Pereira, do Departamento de Alterações Climáticas da Agência para o Clima, que fez um enquadramento abrangente do MVC português, explicando as regras-base, o quadro legal e os agentes envolvidos - desde promotores e verificadores a intermediários e utilizadores de créditos. A oradora destacou os pilares fundamentais do sistema: credibilidade, adicionalidade, permanência, eficácia, acompanhamento, transparência e sustentabilidade, bem como os critérios de elegibilidade de projetos, em particular na área florestal. Abordou ainda as três formas de utilização dos créditos de carbono - compensação, contribuição e investimento - e apresentou os valores de referência por região e tipo de projeto.
A mesa‑redonda que se seguiu, moderada por Daniela Amorim, Senior Manager ESG na KPMG, contou com a participação de Rita Pereira, Paulo Américo Oliveira (Corticeira Amorim/APCOR) e Nuno Calado (Sonae Arauco). Daniela Amorim iniciou o debate destacando a evolução do carbono como instrumento estratégico, o papel crescente do MVC e a necessidade de as organizações integrarem a sustentabilidade e a neutralidade carbónica no centro da sua tomada de decisão. Sublinhou ainda a mudança de paradigma que transforma os departamentos de sustentabilidade em estruturas nucleares das empresas.


Os oradores partilharam experiências e expectativas sobre o mercado em Portugal. Paulo Américo Oliveira explicou o percurso da Corticeira Amorim no desenvolvimento de projetos e metodologias, enquanto Nuno Calado defendeu a necessidade de maior incentivo à certificação de produtos biogénicos, alinhada com a aposta da Sonae Arauco na circularidade. Rita Pereira destacou a crescente adesão ao MVC e o lançamento da primeira metodologia florestal nacional.
O painel abordou também os principais desafios do mercado. Foram discutidas diferenças face a standards internacionais, como Verra e Gold Standard, a pressão dos stakeholders, a necessidade de garantir que os créditos não substituem a redução real de emissões e a ainda limitada atratividade do MVC para o desenvolvimento de metodologias próprias em Portugal, apesar do reconhecimento do seu potencial.
Na fase final, os oradores foram desafiados a identificar prioridades estratégicas das suas organizações para atingir a neutralidade carbónica na próxima década, destacando inovação, eficiência, gestão florestal sustentável, circularidade e investimento em soluções de baixo carbono. A sessão terminou com um momento de interação com a plateia, onde foram discutidas novas metodologias, incluindo oportunidades no setor agrícola.