Maria Loureiro é Bioengenheira pela FEUP e desenvolve o seu percurso na área da Inteligência Artificial aplicada à saúde. Atualmente integra a Loka, empresa tecnológica americana de atuação global, onde trabalha no desenvolvimento de soluções de IA para acelerar a descoberta de novos medicamentos.
É membro da Global Shapers Community, do Fórum Económico Mundial, e colabora com a GenH – Generation Health, promovendo o diálogo entre líderes da indústria farmacêutica e jovens profissionais. Em 2026, foi selecionada como uma das 40 jovens líderes mundiais, sendo a única portuguesa, para participar na Reunião Anual do Fórum Económico Mundial, em Davos.

Nome: Maria Loureiro
Idade: 26 anos
Formação: Mestrado em Bioengenharia
Instituição de ensino: Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP)
Função atual: Machine Learning Engineer
Empresa atual: Loka
A Bioengenharia foi a Engenharia propulsora do seu percurso profissional. O que é que a levou a escolher Bioengenharia na FEUP?
Honestamente, enquanto pessoa indecisa e curiosa por vários temas ao mesmo tempo, foi a forma que encontrei para adiar a escolha de uma especialização. Na transição do ciclo básico para o secundário, escolhi Ciências e Tecnologia porque me disseram que era o curso com maior diversidade de saídas profissionais.
Na transição para a universidade foi igual: Bioengenharia tem um currículo muito diverso, com matemática, física, química, biologia, anatomia, entre muitas outras disciplinas na interseção entre engenharia e medicina. Consegui assim adiar novamente a escolha de uma área para me especializar.
Neste momento encontra-se num desafio profissional na Loka, uma empresa americana. Sente que a Engenharia praticada no exterior difere muito da praticada em Portugal?
Na área tecnológica, a difusão de práticas e conhecimento é muito acessível e global, por isso não acredito que existam diferenças estruturais entre Portugal e o estrangeiro. Aliás, a Loka é uma empresa criada com o intuito de ser global desde a origem - o nome "Loka" significa Mundo em hindi, daí ter sido escolhido. Trabalhamos remotamente com pessoas de todos os continentes como se estivessem connosco no Porto, num ambiente verdadeiramente multicultural.
Em Portugal, muito devido à falta de investimento mas também por termos um ecossistema pequeno, as empresas nesta área [IA aplicada à Saúde] são muito reduzidas.
Agora, no que toca à engenharia aplicada à saúde, a situação já é diferente. Dentro da Loka, trabalho numa equipa especializada em aplicar Inteligência Artificial para acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos, e aí as diferenças são grandes quando comparamos Portugal com outros países, nomeadamente os Estados Unidos. Trabalhar para empresas americanas permite-me trabalhar com tecnologia e inovação de ponta aplicadas à saúde. Em Portugal, muito devido à falta de investimento mas também por termos um ecossistema pequeno, as empresas nesta área são muito reduzidas. Ainda que a situação tenha melhorado imenso nos últimos anos, continua longe de países como os Estados Unidos.


O seu percurso desenvolve-se na área da Inteligência Artificial aplicada à saúde. Como é que descreveria o seu dia-a-dia a um estudante de Bioengenharia, interessado em descobrir essa área?
A Loka é uma consultora, portanto cada um de nós está inserido numa equipa multidisciplinar com outros Lokals, como Engenheiros de Dados, Gestores de Projetos, Engenheiros de Software, entre outros, e trabalhamos em conjunto num projeto para um cliente específico. Temos reuniões diárias internas em que discutimos o progresso feito no projeto e os desafios que possamos ter, e depois reuniões com o cliente onde apresentamos os resultados e acordamos os próximos passos.
Este trabalho é feito sempre remotamente, por isso muitas vezes estou a trabalhar a partir de casa, no Porto, ou vou para um escritório de trabalho partilhado com colegas que vivem perto e passamos o dia juntos.
É membro da organização Global Shapers Community, uma rede internacional criada pelo Fórum Económico Mundial. O que é que a levou a fazer parte desta comunidade?
Desde sempre gostei de contribuir para as comunidades onde estou inserida. Estive, por exemplo, no Núcleo de Estudantes de Bioengenharia (NEB-FEUP/ICBAS) durante os cinco anos do curso. No entanto, depois de sair da universidade, as oportunidades de voluntariado tornam-se menos óbvias, principalmente em comunidades de jovens e com possibilidade de usar as minhas competências. Vi nas redes sociais o recrutamento para a comunidade dos Global Shapers e pareceu-me a combinação perfeita: contribuir, com impacto real, para a cidade do Porto, enquanto conhecia um grupo de jovens multidisciplinar, das mais diversas áreas, tanto no Porto como em várias cidades do mundo.

Onde e como é que aplica a Engenharia nesta organização?
A engenharia está sempre presente no meu dia a dia, e o trabalho que desenvolvo no voluntariado não é diferente. Torna-me uma pessoa muito prática, com planeamento estruturado e focada em objetivos. Garanto que temos um processo estruturado de criação de novos projetos, com pequenos projetos-piloto que se focam na solução do problema e percebem se há realmente uma necessidade a colmatar na sociedade, sempre suportados com dados e estatísticas, além da medição do impacto.
Um exemplo muito prático: no projeto que lidero dentro dos Global Shapers, em que capacitamos estudantes do secundário do Porto com competências digitais e IA, criámos um projeto-piloto com apenas uma escola - três turmas de estudantes de cursos profissionais - onde avaliámos as suas competências e conhecimentos antes e depois da nossa aula. Desta forma testámos o projeto e o seu impacto de forma rápida e analítica, e agora estamos prontos para escalar, já com provas dadas.
Na GenH – Generation Health coordena programas executivos que conectam líderes seniores de empresas farmacêuticas com jovens profissionais. De que maneira é que a Engenharia lhe permite uma melhor gestão das suas tarefas?
A GenH é uma organização que trabalha para facilitar o diálogo entre gerações na liderança da saúde. Organizamos programas executivos onde líderes de topo da indústria farmacêutica trabalham diretamente com jovens profissionais e estudantes. Por exemplo, no Instituto Superior Técnico, levamos estes executivos a partilhar as aprendizagens e os desafios reais que foram acumulando durante o seu percurso profissional, criando conversas genuínas entre quem lidera a indústria hoje e quem vai moldá-la amanhã.
A engenharia torna-me muito prática e orientada para resultados: cada programa tem objetivos claros e métricas de impacto. Além disso, consigo falar tanto a linguagem técnica dos jovens engenheiros como traduzir os desafios estratégicos dos executivos, servindo de ponte entre estes dois mundos.
A engenharia torna-me muito prática e orientada para resultados: cada programa tem objetivos claros e métricas de impacto.
Faz parte do grupo de 40 jovens líderes mundiais, sendo a única portuguesa, selecionado para participar, de 19 a 23 de janeiro de 2026, na Reunião Anual do Fórum Económico Mundial (FEM) em Davos, Suíça. O que é que uma jovem Engenheira procura levar e trazer desta reunião? De que forma poderá impactar a Engenharia praticada em Portugal?

Fui para Davos com o objetivo de representar os jovens, tanto em Portugal como noutros países, principalmente aqueles que trabalham ou querem trabalhar na área tecnológica. A Inteligência Artificial traz muitos benefícios, como por exemplo na área da saúde, mas também muitos desafios, nomeadamente em posições de entrada júnior.
As empresas tecnológicas são as primeiras a implementar esta inovação em massa e, por isso, os jovens nestas áreas estão já a sentir o impacto: redução de posições de entrada e dificuldade em entrar no mercado de trabalho. Ainda esta semana, a Amazon despediu 16 mil pessoas globalmente.
Os líderes de empresas e do governo têm de ter visibilidade sobre este enorme problema, que vai rapidamente abranger outras áreas. Precisamos de garantir que temos soluções para este desafio e que os jovens continuam a ter oportunidades de emprego e crescimento, independentemente da sua origem sócio-económica.
A Ordem dos Engenheiros é uma entidade que procura, entre outras valências, proteger e valorizar o trabalho dos Engenheiros e Engenheiras em Portugal. De que forma é que acha que esta instituição poderia apoiar o impacto e a fixação dos Bioengenheiros no país?
A minha maior preocupação neste momento é exatamente a entrada de jovens no mercado de trabalho, pelos motivos que já referi. Sendo a Ordem uma entidade bem reconhecida e com uma grande rede de contactos, acho importante perceber que contribuições pode fazer para colmatar este problema.
Pensar, em conjunto com o governo, universidades e associações, como podemos ajudar os jovens, tanto bioengenheiros como outros, a entrar no mercado português.
Facilitar a ligação de jovens, ainda durante o percurso universitário, a empresas com necessidades no mercado é essencial.
Aos 26 anos tem já um percurso impressionante percorrido. Há (ainda mais) Engenharia no futuro do seu percurso profissional?
Sim, acho que a engenharia será sempre uma parte essencial do meu percurso profissional, uso esse pensamento em qualquer projeto em que trabalho. Quero continuar a desenvolver inovação na área da saúde, para criar impacto e acelerar a chegada de medicamentos às pessoas que mais precisam.
Quero também lutar para que qualquer jovem consiga construir a vida que deseja, garantindo transparência no acesso a oportunidades de percurso profissional, independentemente da sua origem sócio-económica.
Se pudesse dar um conselho a um/a futuro Engenheiro/a que esteja a ler esta entrevista, qual seria?
Aproveitar todas as oportunidades que surgem durante a universidade: estágios, associações de estudantes, organizações de empreendedorismo, competições técnicas, o que for.
Durante o percurso, muitos estudantes focam-se demasiado em estudar e tirar as notas mais altas possíveis e, apesar de ser importante, muitas vezes desvalorizamos o impacto que estas atividades extracurriculares podem ter no nosso futuro. Por um lado, pelas competências diversificadas e únicas que ganhamos, mas também pela enorme rede de contactos que criamos e que será essencial durante toda a vida profissional.
Nos primeiros dias na FEUP, alguém nos avisou: "O email vai ser onde vão ter acesso às melhores oportunidades durante a faculdade." Acredito mesmo que é verdade!
Há futuro onde Há Engenheiros? Justifique.
Acredito que qualquer reunião, colaboração ou projeto funciona melhor quanto maior for a diversidade de pensamentos, origens, idades e formações. Por isso, acredito que os engenheiros são essenciais nas organizações, não só em empresas mas também no governo e associações sociais.
Durante a Reunião Anual do Fórum Económico Mundial em Davos percebi o valor de ter conversas multidisciplinares para chegar a soluções que resolvem problemas reais.
Há futuro onde há engenheiros, mas também psicólogos, economistas, médicos e tantos outros.
