Por: Nuno Nunes, Engenheiro Informático
Será que estamos a expor demasiado as crianças nas redes sociais? A minha opinião, é: sim, estamos.
Vivemos numa era cada vez mais digital, e em que quase tudo ou mesmo tudo parece merecer ser partilhado, o primeiro sorriso, o primeiro banho, o primeiro dia de escola, a primeira comunhão, etc. São momentos genuínos e normalmente carregados de emoção, e que naturalmente os pais querem guardar e celebrar. O problema é que, hoje, o álbum de família já não está apenas numa estante da sala em casa, está na internet, e isto por si só já pode significar um problema.
Este fenómeno tem nome: “sharenting”. A partilha contínua de fotografias, vídeos e outros conteúdos da vida das crianças nas redes sociais
Hoje, o álbum de família já não está apenas numa estante da sala em casa, está na internet, e isto por si só já pode significar um problema.
Nuno Nunes
Muitos pais não veem problema algum, afinal, “é só uma fotografia” ou “é só uma storie”. Mas no mundo digital não existe o “só”. A maioria das imagens podem conter metadados, que numa explicação muito simples, são informações escondidas dentro de um ficheiro, uma fotografia por exemplo, pode indicar, a data, a hora, o local exato onde foi tirada e até o modelo do telemóvel ou máquina fotográfica. Esta informação pode ser depois usada para diversos fins, como por exemplo, criar perfis falsos nas redes sociais, alimentar sistemas de inteligência artificial, ser manipulada para fins maliciosos, etc.
Num contexto profissional, fala-se constantemente de proteção de dados, minimização de exposição, princípio do menor privilégio e necessidade de consentimento informado. Implementam-se políticas, controlos de acesso, fazem-se auditorias e evita-se divulgar informação sensível sem um propósito claro. No entanto, num ambiente doméstico, relaxa-se completamente em relação a estes princípios.
A maioria das imagens podem conter metadados, que numa explicação muito simples, são informações escondidas dentro de um ficheiro, uma fotografia por exemplo, pode indicar, a data, a hora, o local exato onde foi tirada e até o modelo do telemóvel ou máquina fotográfica.
Nuno Nunes
Os pais publicam a fotografia do primeiro dia de aulas com o nome da escola visível, partilham a festa de aniversário com a localização identificada, identificam os amigos dos filhos para agradecer a presença numa festa, publicam rotinas diárias, ou seja, estão constantemente a criar previsibilidade, e a previsibilidade no mundo digital é uma informação muito valiosa, e normalmente quem faz uso desta previsibilidade, não tem as melhores das intenções, muito pelo contrário.
Há ainda um risco menos falado, mas igualmente relevante: o impacto futuro na própria criança. Aquilo que hoje é visto como engraçado pode tornar-se embaraçoso na adolescência e mesmo na fase adulta, porque o que hoje parece inofensivo, pode ser usado amanhã para cyberbullying ou mesmo bullying. A internet não tem memória curta, e como se costuma dizer, uma vez na internet, para sempre na internet!
A questão central é simples e diria até desconfortável: quem está a decidir pela criança?
Um criança legalmente não pode consentir até aos 13 anos, e muitos pais não compreendem o que significa ter uma identidade digital permanente. Assim, e mesmo antes de saber ler ou escrever, muitas crianças podem já ter centenas de imagens online espalhadas nas redes sociais e não só, associadas ao seu nome, à sua família, à sua rotina, à sua localização, à localização do seu infantário e/ou escola, entre outros dados, ou seja, estamos, na prática, a construir uma pegada digital sem o respetivo consentimento e que irá acompanhá-la durante toda a vida.
A internet não tem memória curta, e como se costuma dizer, uma vez na internet, para sempre na internet!
Nuno Nunes
O psicólogo Eduardo Sá por exemplo, tem abordado em várias intervenções públicas temas como a exposição excessiva das crianças, os limites na parentalidade e a importância da intimidade na construção da identidade infantil, embora nem sempre utilize diretamente o termo “sharenting”, já alertou para os riscos de transformar a vida das crianças em conteúdo público, defendendo que a infância precisa de espaço privado para um desenvolvimento emocional saudável.
O avanço da inteligência artificial torna este assunto ainda mais crítico e sensível, ferramentas de manipulação de imagem e voz já não são exclusivas de especialistas, uma fotografia pública pode ser reutilizada, alterada ou integrada em contextos completamente distintos do original, inclusive em redes e sites de pedofilia, e, na maioria dos casos, os pais nunca imaginarão nem saberão que isso aconteceu.
Isto significa que os pais devem deixar de partilhar?! Diria que não necessariamente, mas significa que devem partilhar com muito mais consciência.
Privacidade não é ausência de tecnologia, é gestão de exposição, é refletir antes de publicar, é questionar se aquela informação é realmente necessária colocar online, é evitar dados completos, rotinas detalhadas e perfis totalmente públicos.
Outra questão não menos central que deixo é: se fosse a própria criança a decidir, gostaria que aquele conteúdo estivesse online?!
Privacidade não é ausência de tecnologia, é gestão de exposição, é refletir antes de publicar, é questionar se aquela informação é realmente necessária colocar online
Nuno Nunes
A infância é um período de descoberta, erro, crescimento e aprendizagem. Todos tivemos momentos “menos elegantes” que ficaram apenas na memória familiar, a geração atual pode não ter esse privilégio, se cada passo for permanentemente registado e registado online.
Pais, educadores e até os profissionais da área como eu, temos a responsabilidade de proteger quem ainda não pode proteger-se. A tecnologia não é o inimigo, mas a exposição inconsciente é.