A Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) acolheu, no passado dia 26 de maio, uma conferência dedicada ao impacto da Inteligência Artificial na Engenharia Civil, numa iniciativa promovida pelo Grupo de Trabalho de Engenharia Civil da Ordem dos Engenheiros – Região Norte (OERN), em parceria com o Departamento de Engenharia Civil e Georrecursos, e que já prevê uma segunda edição.
Na abertura, o presidente da Ordem dos Engenheiros – Região Norte, Bento Aires, destacou o momento de mudança vivido pelo setor, recorrendo a uma metáfora: “é como entrar no mar frio: ou avançamos com decisão e enfrentamos o desconforto inicial, ou progredimos lentamente e arriscamos perder o potencial transformador”. Defendendo uma atitude proativa, sublinhou que esta evolução poderá ajudar a responder à escassez de profissionais e reforçar a capacidade de resposta: “se conseguirmos acelerar esta transição, vamos conseguir colocar mais engenheiros a fazer aquilo que sabem fazer, que é criar valor”, acrescentando que as tarefas mais rotineiras tenderão a ser assumidas por sistemas automatizados. Ainda assim, reforçou: “não vamos dispensar o engenheiro — a responsabilidade será ainda maior na validação dos resultados”.


O diretor do Departamento de Engenharia Civil e Georrecursos da FEUP, Francisco Taveira Pinto, salientou a relevância do tema e a adesão registada: “é com particular satisfação que vejo esta participação”, referindo tratar-se de “um tema de inequívoca atualidade e de importância estratégica para o nosso setor”. Enquadrando a evolução tecnológica, afirmou que “vivemos um momento de profunda transformação, cada vez mais rápida, inovadora e desafiante”, acrescentando que “a Inteligência Artificial está a redefinir paradigmas”. Para o responsável, a questão central não é a adoção, mas a forma de utilização: “a dúvida não é saber quando a vamos usar, mas como a vamos usar”. Alertou ainda para o impacto no ensino: “não é apenas uma questão tecnológica — é uma questão pedagógica, ética e estratégica”, sublinhando que “a Engenharia Civil continuará a ser feita por pessoas, para pessoas”.


Também o coordenador do Grupo de Trabalho de Engenharia Civil da OERN, Vítor Monteiro, evidenciou a dimensão da mudança, afirmando que “estamos perante uma transformação tecnológica profunda, e a Engenharia Civil não está à margem desta mudança — muito pelo contrário”. O responsável destacou a necessidade de uma abordagem crítica, lembrando que “nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, substitui o julgamento, a responsabilidade e o compromisso do engenheiro” e advertindo que “um dos maiores riscos talvez não seja a utilização da Inteligência Artificial, mas sim a sua utilização acrítica”.
O diretor da FEUP, Rui Calçada, enalteceu a realização da conferência e sublinhou a importância de promover reflexão sobre os desafios colocados pela Inteligência Artificial, destacando a necessidade de adaptação das instituições, dos profissionais e do ensino superior a este novo contexto tecnológico.
O programa reuniu diversos especialistas, entre os quais Álvaro Costa, professor associado da FEUP e CEO da TRENMO, Pedro Andrade, diretor de inovação do Grupo Casais, António Monteiro, sócio e CEO da A400, Pedro Brito, gestor de projectos de produção da BIMMS, e Luís Sanhudo, diretor de transformação digital da BUILT CoLAB, que apresentaram aplicações concretas em áreas como o projeto, a construção e a gestão de obra.


As mesas redondas, moderadas por Vítor Monteiro e por Miguel Ferraz, diretor da licenciatura em Engenharia Civil da FEUP, estiveram entre os momentos mais dinâmicos da conferência. Os debates revelaram-se particularmente profícuos na troca de ideias, com forte interação e abertura às questões do público, contribuindo para aprofundar a reflexão e aproximar perspetivas entre academia, indústria e profissionais.
A sessão da tarde centrou-se no ensino e na aprendizagem, com intervenções de Sónia Rodrigues, pró-reitora da Universidade do Porto, João Faria, pró-diretor da FEUP, Henrique Cardoso, director do mestrado em Inteligência Artificial da FEUP, Luís Pereira, professor da Universidade Aberta, João Pedro Pêgo, coordenador do Gabinete de Inovação Pedagógica da FEUP e Rodrigo Bernardo, estudante de Engenharia Civil da FEUP, que abordaram os desafios pedagógicos e as novas competências exigidas.
No final, ficou clara a ideia de que esta transformação será determinante para o futuro da Engenharia Civil, dependendo, contudo, da forma como for integrada. Entre os participantes, prevaleceu a convicção de que o papel do engenheiro, o pensamento crítico e a responsabilidade profissional continuarão a ser centrais na criação de valor para a sociedade.
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