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Grandes Entrevistas de Engenharia com... Gustavo Dias

16 de março de 2021 | Geral
Entrevista: Catarina Soutinho | Design: Melissa Costa | Fotos: direitos reservados

 

A STRATOSPHERE S.A., sediada em Guimarães, integra o consórcio de empresas responsável pelo transporte dos conteúdos recolhidos em Marte e que deverão chegar ao planeta Terra em 2031.

 

Fomos conversar com Gustavo Dias, o CEO da Stratosphere S.A, empresa que desenvolve sistemas de diagnóstico e prognóstico para os setores aeroespacial, energia e smart cities e atividades de Engenharia para o setor aeroespacial, e que integra o consórcio de empresas portuguesas que estão com a NASA na missão a Marte MSR – Mars Sample Return. Gustavo Dias partilha connosco o caminho e o que se espera desta missão, e não deixa de enaltecer que “há muito bom trabalho a ser realizado em Portugal no setor Espacial em particular.”

 

 

 

 

Para quem não o conhece, fale-nos um pouco do seu percurso para podermos contextualizar os leitores.

Iniciei a minha atividade profissional no INEGI como engenheiro de investigação, trabalhando fundamentalmente em análise dinâmica para aplicações no setor aeroespacial. Posteriormente iniciei um doutoramento focado em escoamentos viscoelásticos e interação entre fluído-estrutura. Um projeto conjunto entre a Universidade do Minho e a Mines ParisTech. Desde 1998 que desenvolvo atividade docente, investigação e consultoria em aplicações aeroespaciais. Fundamentalmente na introdução de novos materiais, aplicações de materiais inteligentes e sistemas de análise de dano e prognóstico. Em 2008 fui um dos cofundadores da Empresa Critical Materials SA, posteriormente transformada na Stratosphere S.A. A empresa desenvolve sistemas de diagnóstico e prognóstico para os setores aeroespacial, energia e smart cities e atividades de Engenharia para o setor aeroespacial.

 

“A Stratosphere S.A. desenvolveu no âmbito de um consórcio português, envolvendo, além da empresa, a Amorim, o PIEP e o ISQ, a Engenharia da cápsula de retorno à Terra.”

 

A Stratosphere S.A está presente na missão a Marte que por estes dias nos deslumbrou. Concretamente o que fizeram?

A missão a Marte MSR – Mars Sample Return é uma missão conjunta entre a NASA e a European Space Agency (ESA), com várias fases. Aquela que assistimos recentemente é apenas a primeira, a colocação em Marte da Perseverance. Posteriormente, uma nova fase fará o retorno do material retirado de Marte para a órbita da Terra. E finalmente uma última fase fará o retorno ao solo terrestre. A Stratosphere S.A. está presente nesta última fase. A empresa desenvolveu no âmbito de um consórcio português envolvendo, além da empresa, a Amorim, o PIEP e o ISQ, a Engenharia da cápsula de retorno à Terra, incluindo os modelos de simulação de reentrada, a avaliação do impacto no solo, além do desenvolvimento da arquitetura de sistema. A cápsula, tem características inovadoras, não tem nenhum sistema de desaceleração incorporado (paraquedas). Será a própria estrutura da cápsula a absorver toda a energia de impacto no solo após a reentrada. Este tipo de tecnologia em chama-se cTPS – Crushable Thermal Protection System. Combina a proteção térmica da cápsula com a capacidade de absorver a energia do impacto. A correlação entre os modelos de Engenharia e os ensaios da solução teve variações inferiores a 5%. O principal requisito da cápsula é garantir que os elementos que retornam de Marte sejam protegidos de efeitos térmicos e não haja contaminação da atmosfera terrestre.

 

 

Como se deu a oportunidade de trabalhar neste projeto único? Quem vos contactou, como foi a “negociação”?

A participação em projetos deste tipo, em geral, implica uma resposta a um pedido de solução elaborado pelo cliente final. Neste caso a ESA. O consórcio elaborou uma proposta técnica e de gestão do projeto em conjunto com uma proposta comercial/financeira, que foi avaliada positivamente pela ESA. Neste tipo de propostas, competimos com todos os países membros da ESA, cujas empresas podem concorrer. Após a aprovação, a negociação final não é complexa.

 

“Neste tipo de contratos, o balanço entre a experiência demonstrada em aplicações no Espaço e a solução técnica proposta têm o maior peso na escolha da empresa/consórcio.”

 

 

Não havia outra empresa no mundo que quisesse fazer o mesmo? Por que se destacaram?

Existem várias empresas no mundo, em particular na Europa, capazes de realizar a Engenharia de um sistema cTPS. Normalmente são empresas com dimensão bastante superior à Stratosphere. A participação em consórcio é uma forma de garantir que todas as competências têm um nível de excelência e assim maximizar a possibilidade de ganhar os contratos. Há algumas particularidades na solução proposta, como a inclusão de um material de Engenharia com base em cortiça como suporte ablativo. Neste tipo de contratos, o balanço entre a experiência demonstrada em aplicações no Espaço e a solução técnica proposta têm o maior peso na escolha da empresa/consórcio.

 

“Um projeto deste tipo é naturalmente multidisciplinar. Há contribuições de muitas áreas de Engenharia. Engenharia de Materiais e Polímeros, na definição, seleção e qualificação de materiais. Engenharia Aeroespacial e Mecânica”

 

Com certeza tudo envolveu diferentes áreas da Engenharia. Consegue destacar quais e como se vê a sua aplicabilidade?

Um projeto deste tipo é naturalmente multidisciplinar. Há contribuições de muitas áreas de Engenharia. Engenharia de Materiais e Polímeros, na definição, seleção e qualificação de materiais. Engenharia Aeroespacial e Mecânica na modelação do comportamento de materiais, na simulação de reentrada e na construção dos modelos de comportamento termomecânico. Há também uma dimensão de construção de protótipos e preparação de testes que também teve o envolvimento de Engenheiros de Eletrónica e Instrumentação além de colegas de Engenharia Civil na avaliação do comportamento do solo, para garantir o intervalo de propriedades para o teste de impacto da cápsula. Em conclusão, o desenvolvimento deste tipo de projeto necessita de um leque alargado de competências de Engenharia.

 

 

Economicamente compensa estar envolvido num projeto deste tipo? 

Este tipo de projetos, têm que ter uma gestão criteriosa. Mas são compensadores. Há a vantagem de estarmos envolvidos numa atividade de médio prazo. O projeto inicial é a Engenharia da cápsula e posteriormente será realizada a sua construção e testes finais antes da sua incorporação na missão e lançamento.

 

Alguma particularidade do projeto que seja importante referir para que os leitores tenham uma visão mais ampla do vosso trabalho? 

Foi um projeto com muitos desafios. Dois que destaco são: o primeiro foi necessidade de acesso a HPC (supercomputador) para a corrida dos modelos de reentrada, em particular por serem modelos com um detalhe muito elevado, com comportamento complexo dos materiais, e pela física envolvida no processo de reentrada. Os modelos foram preparados pela equipa em Guimarães e foram corridos no Centro de Supercomputação da Galiza em Santiago de Compostela. O segundo foi o desenvolvimento dos testes em protótipos da cápsula (BreadBoards na terminologia do Espaço). Os testes foram realizados para várias condições de solo nas instalações do ISQ em Castelo Branco.

 

“Há muito bom trabalho a ser realizado em Portugal no setor Espacial em particular. Portugal tem participação em programas da ESA há cerca de 20 anos.”

 

Como vê a Engenharia que se faz em Portugal, na sua área em concreto. Consegue identificar o melhor e o pior?

Há muito bom trabalho a ser realizado em Portugal no setor Espacial em particular. Portugal tem participação em programas da ESA há cerca de 20 anos. Há vários exemplos de empresas, institutos de investigação e Universidades envolvidos em muitos domínios com relevância para o setor Espacial. Com contribuições em Engenharia de software, produtos e hardware para aplicações espaciais e também em Engenharia de aplicações. Há muito espaço de crescimento ainda e, recentemente, foi criada uma Agência Espacial Portuguesa com o objetivo de promover o setor e potenciar a participação Nacional em programas no Espaço.

 

Algum/a Engenheiro/a que esteja a ler esta entrevista e que pense em trabalhar na mesma área, quais as skills que acha fundamentais terem?

O skills set para trabalhar nesta área não será muito diferente de outras áreas de Engenharia. Há um conhecimento de domínio que tem que ser desenvolvido. O Espaço tem muitas particularidades que têm de ser apreendidas. Obviamente o rigor, a capacidade de resolver problemas complexos e o trabalho em equipa são muito importantes para o desenvolvimento deste tipo de projetos.

 

“A Engenharia Portuguesa é altamente considerada internacionalmente

e, apesar da situação atual, há oportunidades

em empresas que desenvolvem tecnologia de ponta”

 

Tendo em conta a atual crise decorrente da pandemia por covid-19, quais as oportunidades que os engenheiros devem aproveitar? Onde estão as oportunidades, na sua opinião?

A pandemia criou muitos problemas/desafios às empresas, nos seus negócios e na gestão de recursos humanos. A Engenharia Portuguesa é altamente considerada internacionalmente e apesar da situação atual, há oportunidades para engenheiros de diversas especialidades em empresas que desenvolvem tecnologia de ponta. Em particular no Norte de Portugal, há oportunidades no desenvolvimento de sistemas de energia, na Engenharia de sistemas para automóveis e aplicações aeronáuticas e também, com muito enfase, na Engenharia de software presente em quase todas as aplicações atuais.

 

 

Nomeie um engenheiro do Norte que esteja a desenvolver um trabalho que aprecia, dentro ou fora de Portugal.

O Prof. António Cunha o atual presidente da CCR-N e anterior reitor da Universidade do Minho. Pela sua liderança em momentos de muita dificuldade.

 

 

“A Engenharia Portuguesa tem evoluído muito nas duas últimas

décadas e obviamente a OE deve ter um acompanhamento próximo destes processos.”

 

Temos engenheiros portugueses a trabalhar em missões a Marte. Qual acha que deveria ser o papel da Ordem no futuro que passa muito além do tradicional que estávamos habituados. 

A Engenharia Portuguesa tem evoluído muito nas duas últimas décadas e obviamente a OE deve ter um acompanhamento próximo destes processos. Há muita incorporação de Engenharia desenvolvida por colegas em produtos muito complexos, normalmente desenvolvidos em contexto internacional, em muitas áreas de aplicação. O Espaço é um pequeno exemplo disso. Mas o setor da mobilidade, da energia, entre outros, tem muitos e bons exemplos disso.

 

Há Engenharia em tudo o que há? Explique.

A nossa atual qualidade de vida está fundamentalmente relacionada com a tecnologia que utilizamos e com a Engenharia necessária para colocá-la ao nosso serviço. Está tão presente que nem damos por isso.

 

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