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Grandes Entrevistas de Engenharia com... Manuel Barros

09 de março de 2021 | Geral

Manuel Barros, engenheiro naval que, desde 2016, faz parte da equipa responsável pela expansão do Grupo Douro Azul/Mystic Cruises na área dos navios oceânicos e nas construções de navios de rio.

 

Todos conhecemos os navios que pelo rio Douro, todos anos, transportam milhares de passageiros para conhecer as belezas desta região. De alguns anos para cá, começamos também a ouvir falar nos grandes navios oceânicos que vão germinando nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo a um ritmo sem precedentes na história recente do país.

 

O que poucos conhecemos são as caras por trás destas construções mastodônticas.

 

Fomos conhecer Manuel Barros, o engenheiro Naval, membro da Ordem dos Engenheiros da Região Norte, que integra e coordena a equipa da DouroAzul responsável pela construção destas embarcações.

 

Numa entrevista muito pessoal, Manuel Barros traça-nos os desafios que todos os dias enfrenta, não deixando de referir que para ele “é um enorme privilégio participar num projeto e construção de um navio a partir do zero”. Ainda assim lembra que "a Engenharia Naval é um dos ramos da Engenharia mais completo e complexo", porque "uma embarcação para se “fazer ao mar” tem de estar com os maiores índices de fiabilidade, pois está em causa o bem mais precioso, que é a vida humana.”

 

 

 

Como foi o seu percurso até chegar à DouroAzul para exercer as atuais funções?

Após concluir os estudos secundários em Vila Praia de Âncora rumei a Lisboa, para o Instituto Superior Técnico (IST), para abraçar a carreira de Engenharia Naval. Na época, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) iniciaram uma parceria com o IST para oferecer uma bolsa a estudantes de Engenharia Naval, pois sentiam muita dificuldade em encontrar Engenheiros Navais e quando os encontravam, não era fácil fixá-los na região. Fui o primeiro bolseiro desta parceria, o que me ajudou muito nos meus estudos, tanto a nível económico como de acesso aos Estaleiros, pois fazia parte da parceria, estagiar durante as férias nos ENVC.

 

“Em 2016, fui convidado pela Douro Azul/Mystic Cruises

para fazer parte da equipa responsável

pela expansão do grupo na área dos navios oceânicos”

 

 

E após terminar a licenciatura ficou a trabalhar no Estaleiros, certo?

Quando concluí a licenciatura, em 1995, comecei a trabalhar nos ENVC na área de Desenvolvimento de Projeto passando, posteriormente, para a área de Projeto Conceptual, Básico e de Classificação. Trabalhei na empresa até 2016, tendo participado no projeto e construção das mais variadas embarcações, nomeadamente: Porta-contentores, Químicos, Cimenteiros, Asfalteiros, Enxofreiros, Patrulhas Oceânicos, Lanchas de Fiscalização, RoPax, Passageiros, entre outros. Em 2016, fui convidado pela Douro Azul/Mystic Cruises para fazer parte da equipa responsável pela expansão do grupo na área dos navios oceânicos e acompanhar também as novas construções de rio.

 

“É um enorme privilégio participar num projeto

e construção de um navio a partir do zero”

 

E o que faz exatamente um Engenheiro Naval na DouroAzul?

Faço parte da equipa de Projeto, Coordenação e Acompanhamento das novas construções. Neste momento estamos a construir nos Estaleiros Navais WestSEA, em Viana do Castelo, sete navios da classe World Explorer, estando dois já concluídos: o World Explorer e o World Voyager. O projeto e construção destes navios foi realizado em consórcio, tendo o armador ainda a responsabilidade de projeto conceptual e básico. Assim, tive como responsabilidade a coordenação dos vários parceiros de consórcio, para além da coordenação das atividades de Engenharia neste processo extremamente complexo de projeto naval.

 

“A Engenharia Naval é um dos ramos da Engenharia mais completo e complexo.

Uma embarcação para se “fazer ao mar” tem de estar (…) com os maiores

índices de fiabilidade, pois está em causa o bem mais precioso, que é a vida humana”

 

Enquanto engenheiro Naval, quais são os seus maiores desafios?

A Engenharia Naval é um dos ramos da Engenharia mais completo e complexo. Uma embarcação para se “fazer ao mar” tem de estar concebida, projetada, construída e testada, com os maiores índices de fiabilidade, pois está em causa o bem mais precioso, que é a vida humana, e claro, o seu objetivo comercial ou de lazer.  Para este objetivo, todas as disciplinas/especialidades são essenciais, como sejam: arranjo geral, materiais, estimativa de pesos, estabilidade intacta e em avaria, resistência e propulsão, hidrodinâmica, sistemas auxiliares, ventilação e ar condicionado, ruídos e vibrações, eletricidade e eletrónica, automação, navegação, comunicações, etc. Assim, os desafios são imensos, mas acho que o essencial é conseguir gerir todas estas disciplinas e conseguir terminar encaixando todas as peças deste “puzzle” imenso. É um enorme privilégio participar num projeto e construção de um navio a partir do “zero”, acompanhando todo este processo e mais tarde participar nas suas primeiras provas de mar e finalmente ver o navio começar a sua operação. A partir desse momento os desafios não terminam, pois é necessário responder com eficácia a possíveis problemas que as embarcações sofram e acompanhar todo o seu processo de manutenção e logística. Não faltam desafios…

 

 

A Engenharia Naval é uma profissão de homens?

Não, de todo. É uma atividade para quem sentir esta vocação e gosto. Foi um estigma antigo em relação a estes ramos da Engenharia, incluindo mecânica, que penso estar completamente ultrapassado.

 

“As multinacionais estabeleceram-se em Portugal

para terem acesso a esta “força motriz” que é a Engenharia no nosso país.”

 

Como vê a Engenharia que se faz em Portugal, na sua área em concreto.

A Engenharia em si, está a um nível muito elevado. Basta ver pelos cursos que os jovens estão a escolher, em que a Engenharia ocupa os primeiros lugares. Não só pelo nível de excelência da formação, mas também pelas oportunidades de emprego. Vejamos as multinacionais que se estabeleceram em Portugal para terem acesso a esta “força motriz” que é a Engenharia no nosso país. A minha área não foge a esta regra, estando a um nível muito elevado na sua formação, assim como nas oportunidades de emprego, em Portugal ou no estrangeiro, pois estamos claramente lado-a-lado com os melhores a nível mundial.

 

“Exemplo do melhor? Sem dúvida, o projeto World Explorer!

Sonho de um empresário visionário (Mário Ferreira),

que tornou possível ter um navio de passageiros totalmente construído em Portugal.”

 

Consegue nomear um exemplo do melhor na área da Engenharia naval que se faz em Portugal?

Exemplo do melhor? Sem dúvida, o projeto World Explorer. Sonho de um empresário visionário (Mário Ferreira), que tornou possível ter um navio de passageiros totalmente construído em Portugal. Numa corrida mundial “desenfreada” na área de navios de luxo para expedição polar, o World Explorer foi dos primeiros a chegar à Antártida, proporcionando aos seus passageiros uma aventura extraordinária num navio com bandeira Portuguesa. Foi uma linda homenagem à coragem dos navegadores portugueses, recriando parte da Viagem de Fernão de Magalhães, na comemoração dos 500 anos da circum-navegação.

 

 

Consegue identificar o que faz de pior?

O pior… Sou uma pessoa positiva, vejo só ensinamentos em todas as ocasiões, mesmo nas mais adversas. Nestas adversidades e nos piores exemplos temos de ter a capacidade de encontrar a causa dos problemas ou erros cometidos, para não os repetir, perseguindo a melhoria contínua.

 

“Dou muito valor à geração anterior à minha,

em que não tinham as ferramentas informáticas que hoje possuímos,

e tiveram de criar ferramentas de cálculo para exercer a sua função.”

 

Para algum/a engenheiro/a que esteja a ler esta entrevista e que pense em trabalhar na mesma área, quais os skills que acha fundamentais terem para trabalhar na sua área?

Depois de concluir o curso de Engenharia Naval, ficamos com as bases técnicas necessárias para trabalhar na área, mas a vontade de aprender com outros colegas e com o saber dos trabalhadores das organizações, é essencial para construir uma carreira alicerçada. Temos de ter a humildade para aprender com todos. Dou muito valor à geração anterior à minha, em que não tinham as ferramentas informáticas que hoje possuímos e tiveram de criar ferramentas de cálculo para exercer a sua função. Mas tinham mais tempo disponível. Atualmente, temos ferramentas de cálculo e comunicação excelentes, mas tudo acontece muito rápido, por isso, dedicação, perseverança, disponibilidade e planeamento são essenciais.

 

“São várias as especialidades que contribuem para construção de um navio,

mas além de Naval é Mecânica, Eletrotécnica, Sistemas, Automação e Produção.

A Engenharia de Materiais, Química e Ambiente terão papel cada vez mais importante

nesta atividade.”

 

 

Tendo em conta a atual crise decorrente da pandemia por covid-19, quais as oportunidades que os engenheiros devem aproveitar? Onde acha que estão as oportunidades?

A pandemia é um desafio enorme à nossa geração e veio trazer à superfície imensas fragilidades que a humanidade não sabia que tinha. Quase tudo parou, continuamos a perder imensas vidas preciosas e as organizações enfrentam extremas dificuldades. Nestes tempos de grandes desafios, existem várias áreas que se têm distinguido como a Engenharia biomédica e a sua contribuição na produção de vacinas e a Engenharia informática e comunicações com a “explosão” do “online” a nível mundial. Numa época em que quase tudo faltou, as oportunidades aparecem, havendo vários exemplos de sucesso diariamente na comunicação social. Veja-se a capacidade da nossa indústria têxtil que se adaptou para a produção de equipamento de proteção individual. No fundo, ter a criatividade, a coragem, o empreendedorismo, a versatilidade e espírito de luta.

 

 

Para além da Engenharia naval, que áreas de Engenharia são fundamentais na construção de navios?

São várias as especialidades que contribuem na construção de um navio, mas essencialmente, além de Naval: Mecânica, Eletrotécnica, Sistemas, Automação e Produção. Engenharia de Materiais, Química e Ambiente terão um papel cada vez mais importante nesta atividade, com o objetivo que todos devemos perseguir, a sustentabilidade.

 

 

No que diz respeito à Engenharia Naval quais os exemplos a nível mundial que lhe merecem admiração.

A indústria naval tem vários exemplos de superação dos desafios que a engenharia enfrenta, como os navios de passageiros (autênticas “cidades” flutuantes), os navios de exploração das áreas remotas do nosso planeta, a indústria “off-shore” (com plataformas nos oceanos mais rigorosos), a complexidade dos submarinos e as novas exigências ambientais que obriga a navios cada vez mais sustentáveis. Na sua história, esta indústria foi obrigada a superar-se sempre. Vejamos o esforço na 2ª Guerra Mundial em que os Estados Unidos da América conseguiram lançar à água, em média, um navio da classe Liberty por dia. É um facto extraordinário de capacidade produtiva e planeamento que sempre admirei.

 

"Acho louvável e muito importante, este esforço (da Ordem)

de contribuir para melhorar as competências dos seus membros."

 

 

Qual acha que deveria ser o papel da Ordem dos Engenheiros na vida profissional dos engenheiros?

A Ordem dos Engenheiros tem objetivos bem definidos: na regulamentação da atividade, zelar pelo cumprimento das regras e ética da profissão e defender os direitos dos seus membros. No entanto, é notório o esforço da Ordem em estar perto dos seus membros, assim como, proporcionar cursos de formação continua. Acho louvável e muito importante, este esforço de contribuir para melhorar as competências dos seus membros.

 

Nomeie um engenheiro que esteja a desenvolver um trabalho que aprecia, dentro ou fora de Portugal.

Tive a sorte de na minha formação e atividade profissional me ter cruzado e continuar a cruzar com profissionais de excelência, com trabalho de grande mérito, por isso, a minha homenagem e agradecimento a todos, sendo assim difícil e injusto, nomear apenas um.

 

 

Há Engenharia em tudo o que há? Explique.

Cada vez mais! É impressionante o nível da Engenharia atualmente. Ter conseguido produzir vacinas contra a Covid-19 em menos de um ano e ter aterrado em Marte nestes dias com o objetivo de regressar com amostras, são dois exemplos de vanguarda, mas qualquer atividade simples de hoje em dia, tem muito de Engenharia. Em tempos de pandemia, ir às compras e pagar com cartão “contactless”, imaginem o trabalho de Engenharia por detrás!

 

 

Entrevista: Catarina Soutinho | Design: Melissa Costa

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