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Grandes Entrevistas de Engenharia com... Marta Casanova

15 de outubro de 2020 | Geral

Diretora geral da Quinta do Côrte, Marta Casanova, engenheira agrícola, partilha connosco o papel da Engenharia na gestão de uma quinta e na produção do Vinho.

 

 

Desde que terminou o curso de Engenharia Agrícola, na UTAD, sempre trabalhou com vinhos na região Demarcada do Douro. "Foquei-me na área da viticultura e enologia e sempre trabalhei em empresas relativamente pequenas, o que me permitiu fazer de tudo um pouco. Desde a enologia, a viticultura, área comercial e burocracia." Conta-nos Marta Casanova. Neste entrevista recorda que quando começou a sua carreira, em 1999, a Engenharia Agrícola ainda era uma função de homens, "mas hoje em dia, fico super feliz quando na Quinta da Côrte ou outras adegas, vejo mulheres a fazer trabalhos que até há pouco tempo eram destinados unicamente aos homens. "

 

Conheça Marta Casanova em mais uma Grande Entrevista de Engenharia

 

 

 

 

Para quem não a conhece, fale-nos um pouco do seu percurso para podermos contextualizar os leitores.

Nasci na Maia, onde ainda tenho a minha família e os meus maiores amigos. Vivi na Maia até entrar para a Universidade em Vila Real (UTAD), para o curso de Engenharia Agrícola em 1992. Desde que terminei o curso, foquei-me na área da viticultura e enologia. Desde aí, sempre trabalhei em vinhos na região Demarcada do Douro. Sempre em empresas relativamente pequenas, o que me permitiu fazer de tudo um pouco. Desde a enologia, a viticultura, área comercial e burocracia.

 

 

“Ser responsável de uma Quinta não é só ser enóloga ou tratar da vinha. É tratar de uma casa como se fosse nossa”

 

 

Fale-nos um pouco da sua empresa, das suas funções e responsabilidades?

Além da Quinta da Côrte pertencer a um grupo grande francês que tem outras propriedades em França, nomeadamente Bordéus e Provence, e também na Toscana em Itália, é uma Quinta de pequena dimensão (30 ha) mas com muito trabalho a fazer todos os dias. Ser responsável de uma Quinta não é só ser enóloga ou tratar da vinha. É tratar de uma casa como se fosse nossa. Há sempre obras para executar e acompanhar, coisas para arrumar, jardins, hortas e árvores de fruto para manter. Uma equipa de pessoas para gerir.  Além disso, temos um Enoturismo com casa com 8 quartos e com várias atividades enoturísticas.

 

 

Há Engenharia está muito presente na produção do vinho. Até que ponto ela é fundamental?

A Engenharia está em tudo o que fazemos. Está na capacidade de pensarmos em qualquer trabalho por mais simples que seja e tentarmos otimizar e rentabilizar. Além disso, na “feitoria” do vinho há sempre muitas máquinas (desde bombas de trasfega, máquinas de seleção de uvas, filtros) e temos de perceber o máximo do seu funcionamento para rentabilizarmos a máquina, mas também conseguirmos reparar rapidamente alguma avaria mais simples. Depois, quando temos uma adega nova para construir de raiz, como foi o meu caso nos últimos anos, temos de fazer cálculos às quantidades que pretendemos fazer, quais as capacidades das cubas, quais as capacidades das máquinas, a disposição de máquinas e cubas de forma a facilitar a fluidez do trabalho.

 

 

 

O que é para si mais desafiante e mais compensador nas funções que ocupa?  

É todos os dias ter coisas novas e diferentes para fazer. Sempre novos desafios. O mais compensador é, por um lado, quando conseguimos fazer vinhos que agradam os consumidores e, por outro, não menos importante, quando conseguimos que a nossa equipa de trabalho esteja feliz e satisfeita com o trabalho.

 

 

"Fico super feliz quando na Quinta da Côrte ou outras adegas vejo mulheres a fazer trabalhos que até há pouco tempo eram destinados unicamente aos homens."

 

 

A sua carreira é toda ligada ao vinho. Acha que esta é ainda uma área de homens? Porquê?

Quando comecei, em 1999, era! Mas hoje em dia, fico super feliz quando na Quinta da Côrte ou outras adegas vejo mulheres a fazer trabalhos que até há pouco tempo eram destinados unicamente aos homens. Até porque eu sempre fui um pouco assim, sempre gostei mais do trabalho de “homens”. Sempre gostei de trabalho prático e físico. Ainda que hoje já tenha de passar mais tempo no escritório… Quem me quiser ver feliz é oferecer-me uma boa caixa de ferramentas, por exemplo!

 

 

O que é para si um bom vinho?

Um vinho limpo, sem defeitos, que nos dê prazer beber! Todas as outras definições deixo para os “especialistas”!

 

 

Como vê a Engenharia Agronómica e Agrícola que se faz em Portugal, na sua área em concreto.

Nos últimos anos, tenho a impressão que tem tido alguma saída. Há novos investimentos agrícolas, novas apostas em técnicos superiores. Era bom que apoiassem estes investimentos e não massacrassem as empresas com tantos impostos e taxas, o que por vezes, acaba por matar logo à nascença alguns projetos que podiam ser bastante interessantes, sobretudo a nível económico.

 

 

Algum/a Engenheiro/a que esteja a ler esta entrevista e que pense em trabalhar na mesma área, quais as skills que acha fundamentais terem?

O mais importante, como em todas as profissões, são os valores. Valores como Honestidade, Rigor/Exigência, Responsabilidade, Lealdade/Dedicação e o Respeito por todas as pessoas. Estes são os meus valores. Tudo o resto vamos aprendendo.

 

 

"Há novos investimentos agrícolas, novas apostas em técnicos superiores. Era bom que apoiassem estes investimentos e não massacrassem as empresas com tantos impostos e taxas"

 

 

Tendo em conta a atual crise decorrente da pandemia por covid-19, quais as oportunidades que os engenheiros devem aproveitar? Onde estão as oportunidades, na sua opinião?

A Engenharia dá-nos um sentido mais prático das coisas, mais clareza nas decisões urgentes a tomar. Com o início desta pandemia, senti isto mesmo. Via pessoas e colaboradores à minha volta a entrar em pânico e, acho eu, que fui capaz de manter a calma e tomar decisões urgentes. As oportunidades, foram o termos de nos reinventar. Pensarmos que provavelmente as coisas não iam continuar como estavam e, por isso, tínhamos de mudar um pouco de rumo e dedicarmo-nos a outras coisas que não nos fizessem parar. Foi o que fizemos.

 

 

Qual é segredo para ser um bom engenheiro na área dos vinhos? Há segredo?

Além dos valores que referi, um Engenheiro deve perceber um pouco de tudo. No início de carreira, deve fazer ele próprio o trabalho, desde lavar cubas, desmontar máquinas e bombas, fazer os trabalhos agrícolas, para saber e dar valor ao trabalho. Só assim conhece o trabalho e sobretudo as máquinas que tanto nos ajudam quando a mão-de-obra escasseia no nosso país e sobretudo na nossa área agrícola.

 

 

A Engenharia está na moda? Porquê?

Não sei se está na moda, mas é um curso que dá uma capacidade de raciocínio e um sentido prático, que não vejo noutros cursos.

 

 

"Há muitos trabalhos de louvor desenvolvidos e a serem desenvolvidos em Portugal e fora por Engenheiros portugueses. Gostava que no nosso país vissem e dessem importância a estes casos."

 

 

Nomeie um engenheiro do Norte que esteja a desenvolver um trabalho que aprecia, dentro ou fora de Portugal.

Há muitos trabalhos de louvor desenvolvidos e a serem desenvolvidos em Portugal e fora por Engenheiros portugueses. Gostava que no nosso país vissem e dessem importância a estes casos. Que não sejam apenas os de outros países a fazê-lo. Um que me lembro, mais recente, foi o desenvolvimento do ventilador ATENA. Equipamentos que pensamos que apenas podiam ser feitos na China e, no entanto, alguém aqui tão perto, conseguiu este feito.

 

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