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Mário Ferreira: “O nosso negócio depende muito da Engenharia”

13 de maio de 2020 | Geral

A terceira conferência do "Há Engenharia fora da Caixa" trouxe Mário Ferreira, o carismático presidente da DouroAzul, que, como ele nos contou, “é atualmente uma das mais pequenas empresas do Grupo Mystic Invest" agora um  pouco por todo o mundo.  Mas Mário Ferreira surpreendeu os engenheiros que, durante quase duas horas permaneceram online a assistir a esta conferência, ao listar as diferentes áreas de Engenharia envolvidas no processo de construção dos navios que estão a ser desenvolvidos nos estaleiros de Viana do Castelo. Uma conferência que foi uma verdadeira Ode à Engenharia.

 

 

Conduzida por Joaquim Poças Martins, presidente da Ordem dos Engenheiros – Região Norte (OERN) a terceira conferência trouxe uma das mais importantes vozes do Turismo e da Construção naval portuguesas para a "casa do Engenheiros". Poças Martins, na sua nota introdutória, apontou que “nas sessões anteriores (Rui Moreira e Carlos Vasconcelos) os nossos convidados deixaram-nos mensagens de esperança, mas uma esperança prudente.” E não procurando respostas certas, procura-se perguntas e pontos de vista diferentes. "Ninguém irá dar uma resposta por nós, mas ao escolher pessoas que normalmente acertam, como o Mário Ferreira, que já acertou muito na sua vida, esperamos ter algum tipo de informação para nos ajudar a tomar as nossas decisões.” Afirmou Poças Martins lembrando que os engenheiros querem  “perceber o que vai acontecer a seguir. Esta é uma pandemia de medo e dos média também. Estamos a segui-la, quase doentiamente, em direto. Diariamente somos bombardeados com muitos dados, recebemos informação contraditória.” Por esse motivo agradeceu a Mário Ferreira por “aceitar partilhar connosco os seus pensamentos, numa altura em que é arriscado emitir opiniões.”

 

 

 

O que Mário Ferreira disse

 

 

Sobre a Engenharia vs DouroAzul

Na nossa visão de futuro a Engenharia e a Saúde irão ter um papel muito importante. Do grande conjunto de engenheiros que temos a trabalhar, nos estaleiros, nas outras empresas nacionais e internacionais, e também dentro da nossa estrutura organizacional, temos muitos a trabalhar nas áreas da Engenharia Naval, Civil, Ambiente, Mecânica, Eletrotécnica, entre outros. O nosso negócio depende muito da Engenharia.

 

 

 

 

A DouroAzul foi a nossa primeira grande empresa conhecida, atualmente é uma das mais pequenas, mas foi pela DouroAzul que começámos. Mas esta só pôde começar graças a um trabalho de Engenharia do mais sofisticado que há a nível mundial, que foi construir as barragens e as eclusas de navegação. Sem estas o meu primeiro negócio de sucesso não tinha existido. Por isso um agradecimento especial a dois grandes engenheiros, Valente de Oliveira e Paulo Valada. Foram estes dois grandes visionários, não tanto no sector turístico, mas sim com uma visão da navegação que era feita no centro da Europa para carga. Mas efetivamente, graças a esse excelente trabalho e visão na altura permitiu que neste momento tenhamos esta atividade espetacular que são os cruzeiros no rio Douro.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a Engenharia Naval

Gostava de destacar o renascimento da Engenharia Naval. Com a reabilitação dos estaleiros de Viana do Castelo, permitiu-nos poder fazer renascer uma “arte” que estava quase perdida, porque não havia quem encomendasse grandes projetos, não havia quem estivesse disponível a investir em projetos desta dimensão e com esta complexidade. Nesta Engenharia para criar um protótipo é preciso testar, fazer experiências e fazer correções se necessário. Em Portugal, não existem tanques de teste de grandes dimensões para poder fazer este tipo de testes, mas temos engenheiros para saber trabalhar com esses números.

 

 

 

 

 

 

Sobre a Engenharia do Ambiente

A questão ambiental é muito importante para nós e para este sector.  Nesta área nós temos os sistemas mais sofisticados que existem, desde tratamento de lixos, fabrico de água, redução de emissões de CO2 e enxofre. Mas aquilo que mais preocupa as pessoas é o tratamento das águas residuais.  Para o tratamento das águas residuais, para podermos andar à vontade durante 30 dias na Antártica, o navio tem um sistema sofisticado que permite que as lamas, provenientes do tratamento de purificação da água, sejam completamente secas. Este sistema é conjugado com o sistema de incineração que também temos e que funciona a temperaturas superiores às “normais” sendo assim uma vaporizadora. Portanto, fica tudo tratado a bordo, dentro das normas ambientais, sendo estas as tecnologias mais inovadoras que existem no mundo neste momento.

 

 

 

 

 

 

Sobre a Engenharia Mecânica e Eletrotécnica

Nós desenvolvemos no protótipo, no estaleiro, um modelo de gestão de energia para que o navio seja mais eficiente. Queremos que um navio seja mais leve, mas que continue a aguentar o mar e as tempestades. Em termos tecnológicos temos um navio que é controlado por um “cérebro”. Este controla os milhares de quilómetros de cabelagem que ligam a centenas de sensores, portanto é um navio inteligente. Em tempo real consegue-se perceber tudo o que se está a passar dentro do navio e que permite também, que no futuro, este navio, possa ser controlado remotamente. Esta tecnologia é feita por parcerias internacionais, mas tudo isto é feito por portugueses. Todas estas Engenharias são portuguesas.

 

 

 

 

 

Sobre a construção de navios

Em termos de construção, neste setor, acho que os portugueses se devem encher de orgulho desta capacidade técnica, desta capacidade de produção que temos em Portugal e que está a ser pouco divulgada. Acho até que em alguns casos estamos a ter mais sucesso, no estrangeiro, com o reconhecimento deste tipo de Engenharia e de desafio que foi termos construído navios desta dimensão em Portugal, do que aqui em Portugal. Estamos neste momento a construir no Estaleiro de Viana 6 navios, um deles, que será inaugurado em Agosto, e já tem previsto fazer cruzeiros na Amazónia.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre os investimentos no pós-pandemia

Nós no início do ano tivemos de nos preparar para nos ajustarmos a esta situação em termos de um plano de contenção. Para isso olhámos para o caso italiano. Achamos que aquilo que seria de bom senso fazer era um plano de zero receitas, até ao final do ano. Assim fizémos um plano de negócios em que, em primeiro lugar, está a manutenção dos postos de trabalho, não despedimos nem queremos despedir ninguém. Temos 500 colaboradores em regime de layoff, preparados para recomeçar assim que for possível e queremos ainda, se possível, contratar mais colaboradores assim que a época abrir.

 

 

 

 

 

 

Em segundo lugar a grande preocupação foi não desinvestir, esse foi o grande desafio. Nós temos um plano em curso, neste momento estão dois navios quase prontos e mais três em corte. Estamos a falar num investimento, neste ano, de 100 milhões de euros em construção nos Estaleiros de Viana, que mesmo assim conseguimos manter. Este é um valor muito expressivo para o setor da construção naval. Nos próximos anos serão cerca de 350 milhões que estão projetados e planeados para darmos continuidade ao nosso negócio.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o trabalho nos Estaleiros de Viana

Nos Estaleiros de Viana conseguimos continuar a trabalhar durante a pandemia, naturalmente com um controlo rigoroso. Por exemplo, os trabalhadores vindos de Itália tiveram, obrigatoriamente, de realizar quarentena antes de entrar no estaleiro; todos os carros são descontaminados; as pessoas são todas controladas; as temperaturas são medidas. Assim, até hoje, conseguimos ter 1300 pessoas a trabalhar sem problemas, devido a uma excelente organização do engenheiro Carlos Martins, experiente na organização industrial que fez um plano para que não fosse necessário parar. Foi uma sorte para nós, para o estaleiro e para Portugal que não pode parar. Portanto Viana está bem e recomenda-se e irá continuar a dar trabalho a muita gente.

 

 

 

 

 

 

Sobre as tarifas e low-cost

Vai ter de haver um ajuste. Felizmente, um dos principais custos da aviação é o combustível. O facto de o combustível estar tão baixo neste momento vai permitir que a aviação, possa também, ter pelo menos ali uma excelente poupança nessa área. Agora nós não podemos esquecer que isto não é uma coisa permanente. Temos que pensar que isto é uma coisa de curto prazo, não vamos pensar que isto vai acontecer por mais um ano, porque se assim fosse, bem, ninguém conseguia dar a resposta certa, a menos que todas as campanhias áreas fossem nacionalizadas e que os voos fossem reduzidos a metade daqueles que existiam no passado. Por isso acho que isto é uma altura de transição e as companhias áreas estão a sofrer, mas vão querer certamente, manter os clientes, tentar poupar o que podem poupar neste momento, com o corte de custos e os custos de combustível mais baixo, mas eu apostava numa manutenção dos preços. É óbvio que a maior parte das pessoas fala quase como uma regra de três simples: “estás a tirar aqui 1/3 de passageiros, isto tem que subir bastante mais”. Não. Eu acho que por um período limitado, será uma boa aposta e uma aposta estratégica para atrair e captar clientes, a manutenção, ou até a redução de alguns preços. Se isso não acontecer, se aumentarem exponencialmente os preços e já com o medo que existe em grande parte da população, não terão clientes. Aí será o fim. Assim, acho que vão ter de sofrer um pouquinho, ter piores resultados agora durante uns meses e rezar para que o tratamento intermédio chegue o quanto antes para andarmos todos mais descansados. Acho que o mundo se vai vingar a viajar e a celebrar o desaparecimento, ou pelo menos o controlo deste vírus.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o mercado turístico e dos cruzeiros

Em termos de cruzeiros irá haver uma queda nos próximos 2 anos. Não só pela questão dos voos de longo curso, uma vez que o principal mercado dos cruzeiros é o mercado americano, seguido do alemão e o terceiro os ingleses. Neste momento o nosso mercado estratégico é o alemão, porque querem já viajar e serão para já os clientes de qualidade e baixo risco a poderem viajar pelo mundo. Os navios de 5000 – 6000 pessoas terão de reduzir substancialmente a taxa de ocupação. Portanto aqui a confiança será essencial para a retoma. As empresas terão de dar confiança às entidades reguladoras, aos clientes e aos funcionários, tudo isto tem de funcionar em sintonia.

 

O nosso plano será baseado também na Engenharia. Nós decidimos, embora sabendo que não é 100 % efetivo, que vamos testar toda a gente antes de entrar, vamos medir a temperatura e a bordo teremos também um sistema especial relativamente à distância social. Mas a nossa aposta é mais a montante, é tentar que ninguém positivo embarque. É nas entradas e nas saídas que entra a Engenharia. Compramos uns contentores, uma patente espanhola, um grande projeto de Engenharia. Este é um contentor de 20 pés, totalmente quitado, entra-se por um lado e sai-se pelo outro e quando se entra tem luzes UV que “matam” todos os micróbios que possam existir na roupa, cabelo, etc, possui um arco vaporizador desinfetante, e ainda um local de desinfeção das mãos. Finalmente quando sai entra logo no navio, ou seja, trata-se de um túnel de desinfeção. A ideia é colocar um túnel de desinfeção em cada um dos portos de embarque para evitarmos que algum tipo de micróbio entre com os passageiros.

 

 

 

 

 

 

Os passeios também terão de ser mais controlados, mas é um ajuste à vida atual e áquilo que será possível usufruir. Em relação aos cruzeiros de expedição, contamos abrir já em junho com os cruzeiros a fazer só o norte da Europa. Em relação aos rios, é um tipo de negócio que será dos primeiros a arrancar com grande sucesso pois ainda não perdemos os clientes. Todas as marcações de junho em diante não foram canceladas. Portanto haja abertura de fronteiras e voos capazes e nós estamos prontos para poder funcionar com toda a qualidade e controlo.

 

 

 

Conselhos para Engenheiros

Nós tentamos sempre estar vários passos à frente. Se bolsa de Nova Iorque estiver a fazer o seu trabalho, já estão a olhar para o que vai acontecer daqui a 6 meses ou 1 ano. Nós tentamos estar a ver o que nos pode acontecer e estimar aquilo que nos poderia acontecer no futuro curto, médio prazo, neste caso concreto. Em relação aos engenheiros que também têm os seus negócios, o que eu poderia aqui dizer, é que o ser humano tem uma capacidade de adaptação brutal e nós temos que adaptar os nossos negócios. Durante uns tempos, nós temos que nos habituar a esta nova vida, temos que nos habituar às máscaras, sem exageros. É entendermos o problema, adaptarmo-nos e não ter medo, o importante é não ter medo e pensar que quando estamos no meio de uma tempestade ela parece que nunca mais acaba, mas depois de passarmos a tempestade, rapidamente nos esquecemos dela, e acho que neste caso concreto, (não estou a querer desvalorizar o que está a acontecer), não me vou é render, nem me vou render ao coronavírus, temos é que lutar contra ele, ajustar-se e andar para frente e ver onde é que estão oportunidades.

 

 

 

 

 

 

Obviamente, esta crise, como todas as crises, infelizmente, será o azar de uns e será a sorte de outros, acontece sempre assim nos ciclos de crise, isto já mais nas áreas económicas. Poder poupar e poder ter algumas reservas para o futuro, isso também é outra coisa básica que os portugueses, ao longo dos anos tem reduzido na poupança, por várias questões e também pelo impulso pelo consumo, mas, se calhar, são coisas que voltarão ao de cima, e as poupanças são fundamentais para uma altura destas.

 

 

Sobre Navios Elétricos

Os navios elétricos, davam para fazer uma palestra por si. (risos) Nós temos isso desenvolvido, estudamos bastante os navios elétricos, mas eu pessoalmente, nós temos um projeto, temos os cálculos, temos a Engenharia toda pronta para ter o primeiro navio elétrico de passageiros, porque existe o ferry, e estivémos quase a avançar. Tivemos um impasse que era a infraestrutura de terra que custava mais de 10 milhões de euros, e a infraestrutura de terra não era nossa nem nós a podíamos fazer, tinha de ser feita pelas entidades locais e estávamos a ver isso como um entrave. A tecnologia e o know how nós temos. O que acontece é que para o rio eu já cheguei à conclusão de que o hidrogénio é o futuro. Quando saltarmos, vamos para o passo do hidrogénio e isso sim, acho que o hidrogénio será o futuro para este tipo de embarcações e é nisso que gostaríamos de trabalhar a muito curto prazo, obviamente, estando dependente da grande capacidade, uma vez mais, da engenharia portuguesa que está a trabalhar connosco num projeto desses, que para já, ainda não podemos falar muito, mas estamos a avançar.

 

 

 

 

 

 

Sobre o Tua

Em relação ao Tua, o Tua da nossa parte está pronto, o comboio turístico já está há mais de 2 anos à espera, a embarcação que foi um daqueles movimentos que dava para fazer um documentário na National Geographic. Nós conseguimos levar uma embarcação com quase 100 toneladas, a navegar de Viana até ao Porto, do Porto subir pela água até à confluência do Tua com o Douro. E encontramos ali uma zona, onde as engenharias quase militares, perceberam como é que íamos fazer com umas megas gruas, levantar a embarcação, colocá-la num daqueles multi rodinhas e a caminhar por lá acima. Por isso, foi uma coisa alucinante, conseguir lá pôr a embarcação. Depois de todo este esforço, resumindo e concluindo, construímos os cais, está tudo apto a começar, tivemos o problema da linha. Neste momento, a linha, em princípio, ficará pronta para junho. E agora pergunta: então começa em junho. Neste momento, não lhe podemos dar a resposta, porque infelizmente, há uma parte de engenharias que nós não controlamos e que em Portugal está dependente de uma só firma, que faz a reconversão de comboios e a manutenção de comboios, que não teve ainda disponibilidade para tratar do nosso comboio turístico, porque precisa de fazer ajustes à linha, um conjunto de trabalhos, poucos, mas sem esses, o comboio não estará autorizado a circular na linha a 100%, precisa de levar estes ajustes que estão pedidos.

 

 

 

 ©André Hora

 

 

É preciso também, reabilitar, uma reconversão total, as duas automotoras que lá estão, que nós nos comprometemos a reabilitar, o problema é que quero fazer esse trabalho. Precisamos da ajuda do presidente da CP, ele é que manda nessa empresa e quando ele autorizar, nós vamos. Se não autorizar, olhe, não vamos, não posso fazer mais nada. Nós o que sabemos fazer é gerir meios e trazer clientes, isso nós conseguimos. Se for tarde de mais e nós não tivermos, quer os comboios quer as duas automotoras a funcionar, não podemos fazer mais nada. Se este ano não conseguirmos pôr em prática este projeto, já começam a ser anos a mais. É uma pena, nós acreditamos muito, especialmente este ano, o Tua, terá um potencial muito grande porque existirão mais portugueses a viajar no Tua.

 

 

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Edição e texto: Catarina Soutinho | Transcrição: Sofia Vieira e Inês Miranda | Design Gráfico: Melissa Costa

 

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