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Entrevista Maria João Viamonte, presidente do ISEP

11 de maio de 2020 | Geral
Ciclo de entrevistas exclusivas da Plataforma de Notícias da OERN (HaEngenharia.pt) aos reitores das Universidades, presidentes dos Institutos Politécnicos e  diretores das instituições de ensino de Engenharia.

 

 

Maria João Viamonte, presidente do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP) partilha em entrevista ao Ordem dos Engenheiros - Região Norte (OERN) a sua visão do futuro da Engenharia e dos jovens engenheiros. Fica claro que haverá desafios, mas também oportunidades"necessitamos de mais automação, de inteligência artificial e big data"  e nisso os Engenheiros terão naturalmente um papel significativo porque "O país vai precisar de muitos engenheiros para ultrapassar todos os desafios desta emergência sanitária". Maria João Viamonte lembra ainda o papel importante que a Ordem dos Engenheiros (OE) deve ter junto das entidades governamentais. 

 

 

Muitas vezes ouvimos dizer que os académicos não sabem fazer, apenas ensinam a fazer. Com esta pandemia temos assistido exatamente ao contrário: alunos, professores, investigadores estão ativamente a produzir viseiras, máscaras, ventiladores e muitos outros materiais que ajudam a salvar vidas. Como comenta?

Academia e indústria têm objetivos diferentes, mas são complementares e melhoram uma com a atividade da outra. No ISEP, a investigação científica e os projetos ligados ao mundo industrial, que envolvem investigadores, docentes e estudantes, são as áreas onde mais atuamos logo a seguir ao nosso principal objetivo: preparar os nossos estudantes para poderem competir pelas melhores carreiras profissionais, em qualquer lado do Mundo. Mais, somos uma das escolas do país com mais projetos com empresas e temos muita investigação científica associada às colaborações com a indústria, contribuindo para o aumento da incidência de I&D nas empresas. Dito isto, não fiquei surpreendida com a fantástica e empenhada iniciativa da minha Escola na resposta  a solicitações  externas, mas também por iniciativa interna, dos laboratórios, dos docentes, dos trabalhadores não-docentes e dos estudantes, na resolução de alguns dos problemas que esta terrível crise nos trouxe.  Conseguimos demonstrar que também possuímos capacidades práticas, importantes em todos os aspetos essenciais de qualquer fileira industrial, pois tivemos de pensar, produzir e distribuir produtos de forma rápida, eficiente e com qualidade.  Ou seja, sabemos ensinar e fazer.

 

 

 

 

 

Em que projetos está envolvido o SEP neste enquadramento de combate à Covid-19?

O ISEP começou por responder a um pedido de alguns médicos para ajudar na produção do suporte das viseiras e, posteriormente, após avaliarmos junto dos utilizadores o que seria e deveria ser melhorado, desenvolvemos um novo modelo, mais prático e seguro. Este é um pequeno exemplo de como conhecemos e também seguimos processos industriais e empresariais. Somos participantes ativos do movimento #ProjectOpenAir, integrados no projeto VENT2LIFE, que tem como objetivo ajudar à identificação e reparação gratuita de ventiladores e outros equipamentos médicos que se encontravam inoperacionais nas instituições de saúde,  mas que rapidamente deixou de ser um único projeto e evoluiu para uma plataforma onde vários intervenientes académicos e empresariais trabalham em soluções para os vários desafios do combate ao vírus. Estamos também envolvidos num projeto de produção das zaragatoas, que são  essenciais para a realização dos testes de pesquisa da Covid-19 em parceria com o INEGI e que, mais uma vez, responde a um pedido de ajuda dos profissionais de saúde. Destaco ainda um importante projeto, já apoiado pela FCT, para o desenvolvimento de testes rápidos mas eficazes de deteção da Covid-19 com base em biossensores. Estes são só alguns exemplos do nosso contributo imediato para minimizar a fase aguda desta pandemia.

 

 

 

 

 

 

Acredita que o ISEP irá continuar, mesmo após esta pandemia, a desenvolver equipamentos e soluções para aplicação no dia-a-dia da sociedade? 

Iremos continuar, com certeza, pois a inédita e necessária medida  de colocar toda a população confinada terá efeitos terríveis na economia e na sociedade durante algum tempo, e uma instituição pública como o ISEP, tão multidisciplinar e suportada no conhecimento, tem de assumir o seu dever cívico, e de acordo com a sua missão, colaborar ativamente na linha da frente na recuperação das empresas e de todo o país. Claro que estes desenvolvimentos para resolver problemas novos terão também repercussão interna, como meio de aprendizagem dos estudantes e por abrir novos temas interessantes para investigação científica.

 

 

 

 

 

 

Que áreas de Engenharia pensa que podem ter um novo impulso no pós pandemia?

Na minha opinião todas as engenharias sairão reforçadas. Os profissionais de Engenharia continuarão a assumir um papel muito importante na produção de novos produtos, de tecnologias inovadoras e de novas ideias, vitais para a adaptação das empresas, dos organismos públicos e dos cidadãos à nova realidade que este vírus trouxe. Ficou claro que necessitamos de mais automação, de inteligência artificial e big data. Viveremos com uma crescente digitalização em todas as áreas e será primordial pensarmos a forma como as nossas cidades estão desenhadas e organizadas, para pemitir um desenvolvimento mais sustentável e saudável.

 

 

 

 

 

 

Que skills, na sua opinião são fundamentais que o engenheiros tenham ou adquiram na atual conjuntura para terem mais oportunidades no mercado de trabalho?

Mostrarem grande capacidade de adaptação, de análise e de tomada de decisão, particularmente em situações de stress e quando a informação disponível é limitada. Outra característica que sai realçada desta emergência sanitária é a multidisciplinaridade.

 

 

Que medidas seriam importantes tomar para que os jovens engenheiros e recém-licenciados em geral possam ter oportunidades no mercado de trabalho no qual vai ser, naturalmente, mais difícil de entrar agora?

Acredito que as áreas da Engenharia não vão sofrer grandes perdas, os engenheiros serão essenciais para executar as adaptações e inovações nos produtos e nos processos, necessárias à recuperação dos negócios. No entanto, entendo que devem ser mantidas as medidas de apoio às empresas viáveis mais afetadas por esta crise, para que sobrevivam e tenham tempo de se adaptar às novas circunstâncias, pois será mais eficiente do que se fecharem e terá um impacto mais positivo no emprego e na manutenção de competências. O País vai precisar de muitos engenheiros para ultrapassar todos os desafios desta emergência sanitária.

 

 

 

 

 

 

As novas tecnologias e o ensino à distância provaram que há margem para outras formas de ensino que não o tradicional. Acredita que haverá uma mudança de paradigma na forma como  ensino é lecionado?

As instituições de ensino superior souberam adaptar-se de uma forma exemplar, e foram capazes de redesenhar a forma como o ensino era ministrado. O que ilustra a sua capacidade em responder a grandes desafios societais. É também necessário referir que tal só foi possível porque as instituições têm vindo a desenvolver, ao longo da última década, processos de ensino que assentam no trabalho autónomo dos estudantes. No entanto, acredito que irá haver uma mudança de paradigma no ensino superior,  através da combinação do ensino presencial com o ensino à distância. A realidade que vivemos nos últimos meses, acredito, inspirarão as necessárias mudanças regulatórias para que essa mudança aconteça.

 

 

Como pode a Ordem dos Engenheiros ter uma papel mais ativo e determinante no pós pandemia e no apoio aos seus membros.

A OE deve continuar o excelente trabalho que tem vindo a desenvolver na defesa dos interesses e na valorização dos profissionais de Engenharia. No momento que estamos a atravessar, pode ainda desempenhar um importante papel junto das entidades governamentais alertando as mesmas das dificuldades circunstânciais que estão a atravessar algumas empresas muito suportadas na Engenharia, mas muito importantes para a economia do país. Pode ainda desenvolver diversas acções que ajudem as empresas a digitalizarem-se mais e mais rápido, pois isso será primordial para a competitividade.

 

 

Pedia-lhe uma mensagem para todos os engenheiros e estudantes de Engenharia que irão ler esta entrevista.

A Engenharia é uma profissão de âmbito global. Os engenheiros sempre tiveram um papel muito importante no desenvolvimento das sociedades e podem na realidade melhorar o Mundo se, para além das suas capacidades técnicas e tecnológicas, nunca sacrificarem a ética nem o dever cívico de usarem a Engenharia bem e para o bem.

 

 

 

 

 

Para fechar: Há Engenharia em tudo o que há? Comente.

Sim, há Engenharia em tudo o que tem intervenção humana. Quaisquer que sejam as medidas usadas para avaliar a evolução humana estarão sempre associadas à evolução da Engenharia, pois a aplicação dos resultados da ciência faz-se através da Engenharia. Mesmo quando ainda não se chamava Engenharia, já o era, como por exemplo o controlo do fogo, o processo que permitiu os primeiros escritos, ou a criação da roda. A Engenharia é a caixa de ferramentas da humanidade.

 

 

 

 

 

 
 
Ciclo de entrevistas exclusivas da Plataforma de Notícias da OERN (HaEngenharia.pt) aos reitores das Universidades, presidentes dos Institutos Politécnicos e  diretores das instituições de ensino de Engenharia.

 

 

 

#1 Entrevista João Falcão e Cunha, Director da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP)
#2 Entrevista Pedro Arezes, Presidente da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM) 
#3 Entrevista João Rocha, Presidente do Politécnico do Porto
#4 Entrevista Fontaínhas Fernandes, Reitor da Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)
# 5 Entrevista Maria João Viamonte, Presidente do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP)

 

 

 

Entrevista e texto: Catarina Soutinho / Design gráfico: Melissa Costa

 

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