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A pandemia está mesmo a salvar o Planeta? Ou será que não?

23 de abril de 2020 | Geral
Texto: Sofia Vieira | Design Gráfico: Melissa Costa

 

Nas últimas semanas, vimos imagens surpreendentes do impacto que os períodos de isolamento social e a consequente desaceleração económica, estão a ter um pouco por todo o mundo. O ar mais limpo, o mar azul, os rios mais translúcidos... Mas são tudo boas notícias para o ambiente? O aumento do consumo máscaras e luvas descartáveis, o desperdício alimentar, a produção de papel higiénico, por exemplo, não irão ter um impacto negativo no ambiente?  

 

 

Antes de qualquer dado, vamos já ter como certo que no pós pandemia caberá à Engenharia passar para a linha da frente da batalha, na procura intransigente de novas soluções para os novos desafios que se afiguram um pouco por todo o mundo.

 

 

Menos CO2, melhor ambiente

 

As limitações de contacto para travar a pandemia por Covid-19, implicam, entre muitas coisas, uma redução significativa de viagens áreas, deslocações de automóveis e redução da atividade industrial. Não será por isso de estranhar que se tenha assistido a uma diminuição substancial do consumo de combustíveis fósseis, e consequente redução de gases com efeito de estufa. Estes fatores têm, naturalmente, um grande impacto nas alterações climáticas.

 

Em declarações ao jornal Público, Francisco Ferreira, professor no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e investigador do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade, referiu que a quebra no consumo de petróleo levou à redução das emissões de dióxido de carbono  para menos 1 milhão de toneladas por dia. Por seu lado, só na China, são emitidas menos 3 a 4 milhões de toneladas de COpor dia de carvão.

 

A Agência Internacional de Energia (AIE) divulgou um relatório segundo o qual a procura global de petróleo deve contrair-se este ano pela primeira vez desde 2009, sendo que estão em causa menos 90 000 barris de petróleo por dia em relação ao ano passado.

 

 

 

 

 

Na China, nos últimos meses a produção industrial está já muito abaixo dos valores comuns, o que, segundo dados do portal Carbon Brief, levou a uma diminuição de 29% (equivalente a cerca de 200 milhões de toneladas) das emissões de dióxido de carbono (CO₂), o que equivale a uma redução global de cerca de 6%.

 

Em Itália também assistimos a algo semelhante. Dados do satélite Sentinela-5P, do programa Copérnico da Comissão Europeia e da Agência Espacial Europeia (ESA) revelaram que houve um declínio da poluição do ar desde que foi decretada a quarentena em Itália. O declínio das emissões de CO2 é sobretudo visível no Norte de Itália, mas em Veneza a poluição da água dos canais também diminuiu drasticamente.

 

Portugal, segundo estimativas da Zero, está a emitir menos 52 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) por dia, devido às medidas para conter a propagação do novo Coronavírus, em comparação com o mês de março de 2019. Em Lisboa, a Avenida da Liberdade apresenta os níveis de poluição mais baixos do século.

 

Já nos Estados Unidos, mais concretamente em Nova York, a poluição também já reduziu em quase 50% devido às medidas em vigor.

 

Assim, tendo em conta estes dados é possível que, em 2020, as emissões de CO2 consigam diminuir 7,6% em relação ao ano anterior, cumprindo assim esta meta do Acordo de Paris.

 

Apesar destes valores serem bastante positivos para o meio ambiente, devemos lembrar-nos que esta não é uma mudança estrutural na indústria, mas sim momentânea. Estes valores poderão crescer, e a um ritmo muito rápido no período pós pandemia. Por isso é necessário encontrar soluções, economicamente viáveis, para armazenar esses milhares de toneladas de dióxido de carbono, retirados da atmosfera. E esse é um dos grandes desafios globais da Engenharia.

 

 

 

 

 

 

Máscaras e luvas descartáveis: um risco biológico?

 

Com o novo Coronavírus alastrado por todo o mundo, a necessidade de proteção individual com máscaras e luvas levou ao consumo exponencial de materiais em plástico descartável.

 

Em Portugal, de acordo com dados revelados pelo Diário de Notícias e pela Associação Nacional de Farmácias (ANF) a procura de máscaras passou de um total de 47 581 em janeiro e fevereiro de 2019, para 512 067 no período homólogo de 2020, o que representa um aumento de 976,2%

 

Estes materiais, que por se tratarem de um resíduo com risco biológico, irão ser depositados em aterro aumentando exponencialmente a quantidade de plástico sem tratamento. Em Hong Kong, por exemplo, esses efeitos já se fizeram sentir, uma vez que uma grande quantidade de máscaras descartáveis estão a amontoar-se nas suas praias.

 

Assim a quantidade deste tipo de plástico nos oceanos irá naturalmente aumentar, e também por isso, é necessário criar soluções, também de Engenharia, para limpeza dos oceanos e redução de plástico de uso único.

 

 

 

 

 

 

O combate ao desperdício e o anormal consumo de papel higiénico

 

A "corrida" aos hipermercados poderá também provocar a aquisição exagerada de bens perecíveis, que não sendo consumidos no tempo adequado, poderão contribuir para a produção de desperdício alimentar. Segundo a Nielsen entre 9 e 15 de março as compras nos hipermercados aumentaram cerca de 65% face ao período homólogo.

 

Também a caricata "corrida" ao papel higiénico poderá curiosamente ser um problema. A elevada procura deste bem, obriga a um aumento de produção e, consequentemente, obriga a uma exploração dos recursos naturais elevada. Para produzir 1 tonelada de papel higiénico, são necessárias 1,75 toneladas de fibra virgem (abate de árvores). A produção de cada rolo de papel higiénico requer um consumo médio de 140 litros de água e libertação de gás de cloro elementar no processo de branqueamento.

 

Segundo um estudo divulgado pela Nielsen, em Portugal o consumo de papel higiénico regista um crescimento acima dos 200%. Tendo em conta que cada rolo de papel higiénico pesa cerca de 60 gramas e, segundo o site statista, cada português consome em média 7,6Kg deste bem anualmente, significa que em média cada português gasta cerca de 127 rolos de papel higiénico anualmente. Traduzindo este valor para um aumento de 200% significa que cada português está a “gastar” 21 336 litros de água, anualmente, apenas neste bem.

 

 

 

Mais consumo de água, mais consumo de eletricidade, muito mais internet

 

O consumo de água e eletricidade também tem registado um grande aumento sobretudo à constante lavagem das mãos, roupa usando  máquinas a altas temperaturas, limpeza, entre outros.  O mesmo acontece com a Internet. A Vodafone, por exemplo, registou um aumento de 50% no uso da Internet na Europa, e, a 11 de março de 2020, o DE-CIX registou um novo recorde mundial: a taxa de transferência de dados de mais de 9 terabits por segundo no Frankfurt Internet Exchange, que passou a ter a maior taxa de transferência de dados do mundo.

 

Estes valores devem-se a um motivo muito simples: a população passa mais tempo em casa. Segundo dados divulgados pela Google, os portugueses estão a passar mais 22% de tempo em casa desde o começo do mês de março, valores iguais aos de Espanha e muitos próximos aos de Itália que são de 24%.

 

Em Portugal o consumo de internet aumentou cerca de 60%, em Espanha cerca de 40%, em Itália cerca de 70%, no Reino Unido cerca de 60% e nos Estados Unidos cerca de 18% (na primeira quinzena de março). As atividades que mais cresceram foram jogos online, os redes sociais, sites de compras online como a Amazon, bem como serviços streaming e aplicações de videoconferência.

 

Segundo dados da Netsonda, as redes sociais mais utilizadas pelos portugueses são o Facebook e o Whatsapp, com 86% cada, seguidas do Facebook Messenger (75%) e Instagram (70%). Seguem-se o Twitter (28%), Pinterest (14%), Snapchat (12%) e Linkedin (10%). No que diz respeito às plataformas de streaming, o Youtube (89%) é o mais utilizado, seguido do Instagram (47%), Netflix (45%) e Spotify (44%). O Twitter (12%) e HBO (12%) são os menos utilizados.

 

A maioria dos conteúdos é acedido através do smartphone (86%) e portátil (71%).

 

 

 

 

 

 

O impacto no Ambiente de todos estes fatores será significativo embora ainda não o consigamos quantificar. O certo é que esta pandemia servirá, com toda a certeza, para repensarmos comportamentos, mudar alguns hábitos na nossa vida e provavelmente contribuir ainda para promover a discussão das políticas ambientais e governamentais associadas naturalmente aos novos desafios económicos.

 

A 26 de março, na reunião dos líderes europeus, foi definido por que “começassem a preparar as medidas necessárias para voltar ao normal funcionamento das nossas sociedades e economias”, medidas estas que devem promover um “crescimento sustentável”, integrando, entre outras coisas, a transição verde e a transformação digital, tirando todas as ilações da crise.

 

Finalmente é expectável que os engenheiros sejam chamados a contribuir com soluções nos desafios futuros, da mesma forma que o têm já feito na atual conjuntura.

 

Engenheiros do Ambiente, Civis, Informáticos, Florestais, Mecânicos, Eletrotécnicos, Químicos e muitos outros de todas as áreas, terão um papel determinante na construção do novo normal.

 

Há Engenharia no Futuro. Há Engenharia que (re)constrói o Mundo. Há Engenharia em tudo o que há.

 

 

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