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Grandes Entrevistas de Engenharia com... André Pinho

03 de setembro de 2019 | Geral

André Pinho olha para a Engenharia “como um dos motores da economia de qualquer país”. Com 41 anos está a trabalhar no Dubai, desde 2013, onde é Operations Manager, na Colep Scitra Aerosols. “Com a globalização dos mercados, não chega produzir barato, é necessário produzir melhor, com qualidade e inovar”. André Pinho partilha connosco a sua experiência e deixa alguns conselhos aos engenheiros que pensam em ter uma experiência fora do país. “Todo o processo de adaptação ao novo país é uma aprendizagem contínua que fica para a vida.” Conheça este engenheiro Mecânico  em mais uma Grande Entrevista de Engenharia.

 

 

 

 

Para quem não o conhece, fale-nos um pouco do seu percurso académico e profissional para podermos contextualizar os leitores.

Terminei a minha licenciatura em Engenharia Mecânica na Universidade de Coimbra em 2002 e a Yazaki foi a primeira empresa onde trabalhei. Apesar do meu curto percurso na empresa, a forma organizada e metódica com que tudo lá é realizado, marcou-me bastante enquanto profissional. A oportunidade de trabalhar na Colep surgiu logo no início de 2013. Sendo eu natural de Vale de Cambra, a Colep sempre foi a empresa onde desejei desenvolver a minha carreira profissional. O ambiente multinacional e a autonomia que nos é permitida, é algo difícil de encontrar e, para um jovem engenheiro com vontade de aplicar os conhecimentos adquiridos, é muito motivador. Lá trabalhei na área da manutenção industrial e implementação de novos projetos de Engenharia. Entrei para a Eumel em 2006, onde abracei um novo desafio na área da Gestão da Produção. Sendo a Eumel uma PME, ao contrário de uma multinacional, não existem pessoas dedicadas para cada tarefa específica, o que por um lado dificulta o avanço das atividades, mas por outro promove mais a iniciativa e desenvolve as competências empreendedoras. De 2007 a 2009, em paralelo com a minha atividade profissional, frequentei o MBA em Gestão de empresas na UPBS, complementando assim os meus conhecimentos, enquanto engenheiro, com uma formação em gestão. No início de 2010 regressei à Colep, onde me encontro a trabalhar até ao presente. Desde então passei pela áreas da Manutenção Industrial e Engenharia. No final de 2013 aceitei o projeto da CSA-Colep Scitra Aerosols (joint venture da Colep com um parceiro nos Emirados, a Scitra), onde tive a oportunidade de coordenar a instalação de todo o equipamento, ficando mais tarde à frente das Operações.

 

 

Fale-nos um pouco do seu trabalho no Dubai. Quais as suas funções e responsabilidades?

Enquanto Operations Manager da Colep Scitra Aerosols sou responsável sobre o que ocorre na fábrica. A responsabilidade vai desde a Gestão de toda a Supply Chain, Produção, Engenharia, Técnico, Qualidade entre outras. Trata-se de um desafio abrangente e motivador.

 

 

Como aconteceu esta oportunidade de trabalhar fora do país?

Desde o meu tempo de estudante Universitário que sempre tive a vontade de trabalhar num outro país, partir à descoberta, reiniciar num novo local, num novo emprego. Em 2013 foi me pedido que visitasse uma fábrica de enchimento de aerossóis nos Emirados, com vista a realizar uma avaliação dos seus ativos (equipamentos). Quando regressei, partilhei que tinha gostado de cá estar e que se existissem oportunidades, gostaria de ser considerado. E foi assim que cá vim parar.

 

 

Em que sentido o que faz impacta com a vida das pessoas?

Vejo esta questão em duas perspetivas. A do produto que fabricamos, onde os aeróssois têm como objetivo dispensar produtos de uma forma mais rápida, eficiente e confortável. No limite, entregando conforto aos seus consumidores. A outra perspetiva é o impacto que causo na vida das pessoas com quem trabalho, como posso ajudá-las a se tornarem profissionais mais fortes, preparando principalmente os mais novos para os futuros desafios nas suas vidas.

 

 

Compensa estar longe da família e do país?

Essa não é uma pergunta fácil de responder. Tento focar-me na oportunidade que eu e a minha família temos atualmente, ao viver fora do país, aqui nos Emirados, onde a diversidade de culturas e experiências é enorme. É um local que considero um exemplo, temos pessoas de diferentes nacionalidades, em alguns casos em que os próprios países se encontram de relações cortadas, a viver e a trabalhar pacificamente. É uma lição de vida que passo à minha filha mais velha. No fundo, é mais importante a qualidade do tempo que passamos com as pessoas que mais gostamos, do que a quantidade.

Como é óbvio, à família e aos amigos mais chegados, vamos telefonando para matar as saudades. Com quase seis anos nos Emirados, também já cá temos pessoas que conhecemos e com as quais estabelecemos boas relações de amizade.

 

 

 

 

 

Trabalhar no Dubai é seguramente muito diferente de trabalhar em Portugal. Quais as grandes diferenças que encontra? 

Sim, existem muitas diferenças, mais uma vez, a diferença cultural é a mais significativa. Só a reportar diretamente a mim tenho pessoas provenientes de quatro países diferentes. Contudo, na empresa, a diversidade é maior, temos pessoas oriundas de países como o Gana, Egipto, Nigéria, Bangladesh, Nepal, entre outros. Empatia, compreensão e respeito são essenciais num ambiente cultural como este.

 

 

Como vê a Engenharia que se faz em Portugal. Consegue identificar o melhor e o pior?

Eu vejo a Engenharia como um dos motores da economia de qualquer país e Portugal não é exceção. Com a  globalização dos mercados, não chega produzir barato, é necessário produzir melhor, com qualidade e inovar. É aí que eu acredito que a Engenharia é fundamental. Penso que existem muito bons exemplos de sucesso, no entanto, ainda existem muitas empresas a tentar avançar etapas, e essas, receio que nunca chegarão a diferenciar-se.

 

 

Que tipo de acompanhamento tem um engenheiro a trabalhar no Dubai?

Como a minha experiência, no Dubai, se limita a trabalhar para a Colep, só posso falar nessa vertente. A Colep está bem organizada a esse nível, existem profissionais experientes nas diversas especialidades, o que permite à equipa na fábrica do Dubai, ou em qualquer outra localização, ter uma pessoa mais sénior para se suportarem nos diversos desafios técnicos. Existem também reuniões regulares por especialidade, algumas presenciais, outras via Skype.

 

 

Algum engenheiro que esteja a ler esta entrevista e que pense em trabalhar na mesma área e no Dubai, quais os skills que acha fundamentais terem?

Resiliência e vontade de se adaptar a um ambiente pluricultural. Resiliência por que as mesmas tarefas por vezes obrigam ao dobro do esforço, nem sempre vamos conseguir encontrar o produto ou o serviço que facilmente alcançamos em Portugal. Vontade de se adaptar a um ambiente pluricultural, porque estamos perante pessoas de culturas, nacionalidades e religiões muito distintas, a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro é levada ao limite.

 

 

A nova geração de engenheiros não tem medo de arriscar e trabalhar fora do país. Recomenda uma experiência internacional? Porquê?

Pessoalmente recomendo. Sair da zona de conforto é obrigar-nos a quase começar de novo, só nos pode fazer crescer, quer profissionalmente quer pessoalmente. Todo o processo de adaptação ao novo país é uma aprendizagem contínua que fica para a vida. Já para não falar nas pessoas que vamos conhecer e as amizades que vamos construir.

 

 

Que tipo de engenheiros trabalham consigo, há mais portugueses? Em que áreas?

Essencialmente temos engenheiros mecânicos, electrotécnicos e químicos. Neste momento não temos cá mais nenhum engenheiro português, mas já cá tivemos, há mais ou menos dois anos. Tal como eu, os portugueses vêm por um período de expatriamento e é possível, que no futuro, tenhamos novamente mais portugueses.

 

 

É respeitada e valorizada a formação portuguesa em Engenharia no Dubai?

Tenho alguns amigos engenheiros no Dubai, maioritariamente engenheiros civis, todos em posições seniores. No meu entender sim, a formação portuguesa em Engenharia é respeitada no Dubai. Acredito também, pela história, que nós portugueses temos uma boa capacidade de integração em diferentes culturas, o que por si só nos torna profissionais atrativos na região.

 

 

Qual é segredo para ser um bom engenheiro? Há segredo?

Não sei se existe um segredo, para mim é importante ter resiliência e rigor. Não interessa qual a perceção que possamos ter acerca da importância de um determinado trabalho, se nos pedem que o verifiquemos, devemos fazê-lo da única forma que aprendemos na Faculdade, com rigor. Devemos também ter em conta que a análise empírica é importante, mas deve ser utilizada para ajudar a validar o cálculo teórico, não para tomar a decisão.

 

 

 

 

 

A Engenharia está na moda? Porquê?

Como referi anteriormente, hoje os produtos têm de se diferenciar, quem melhor que os Engenheiros para o fazerem. Mesmo quando a diferenciação é alcançada por outros profissionais, o engenheiro é chamado para tornar essa diferenciação possível. É um trabalho motivador e apaixonante.

 

 

Qual acha ser ou qual deveria ser o papel da Ordem do Engenheiros na vida profissional engenheiros?

No meu entender a Ordem dos Engenheiros deverá ter um papel mais interveniente na vida dos mesmos. Quer a acompanhar e a desenvolver os jovens engenheiros, quer a atualizar os engenheiros mais experientes. A regulação da profissão é também essencial, por um lado para proteger a profissão e por outro para proteger a Sociedade e os cidadãos.

Deverá ter uma papel mais presente na planeamento da educação do país, garantindo, para o futuro, Engenheiros com qualidade e em número adequado. Ainda dentro da Educação, penso que é também importante um papel mais ativo e convergente entre as Universidades e as Empresas, promovendo a inovação.

 

 

Quais os maiores desafios dos engenheiros mecânicos neste século?

Num mundo global e dinâmico como temos hoje, a capacidade do engenheiro mecânico de se actualizar é fundamental para o seu sucesso. O busca contínua por novas técnicas e produtos, a necessidade de complementar os seus estudos, é hoje um dado adquirido. A sua capacidade de manter esse ritmo de aprendizagem pelo maior período de tempo possível, será um dos seus grandes desafios.

 

 

Nomeie um engenheiro do Norte que esteja a desenvolver um trabalho que aprecia, dentro ou fora de Portugal.

Vou enunciar dois engenheiros que admiro, sem me limitar ao norte do País. Em Portugal o Engº. Carlos Ribas, que hoje lidera os caminhos da multinacional Bosch em Portugal, é para mim um exemplo de rigor e liderança. Fora de Portugal o Engº. Carlos Tavares, CEO do Grupo PSA, é muito inspiradora a forma como consegue transformar desafios em oportunidades.

 

 

Há Engenharia em tudo o que há? Explique. 

Sendo eu um engenheiro mecânico, daria o exemplo de um equipamento. A necessidade, a conceção e a montagem do mesmo é Engenharia. As peças que o formam é Engenharia, a escolha dos materiais de cada uma das peças é Engenharia. A prospeção, extração e processamento de cada um dos materiais é Engenharia. Resta-nos continuar a promover mais e melhor Engenharia.

 

 

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